Agruras do crescimento pós econômico

Tão tortuoso como uma árvore do cerrado, tão tonitruante como uma arara em extinção

capa Bill Hammond — Waiting for Buller. Bar

Se há uma lição a ser aprendida muito em breve é a da incompetência da parte mais ocidental do neofascismo global, representada em toda sua glória pelo conceito britânico de “imunidade de rebanho” e pelos apelos cada vez mais constantes de Trump e seus asseclas pelo sacrifício de vidas em nome da “economia”.

Amauri Gonzo em Contágio Social

A ironia, me parece, é que não existe capitalismo sem consumo. Mais ainda, não existe capitalismo global e dominante como o que vemos atualmente sem uma grandiosa e gigantesca massa de consumidores. Mas ainda assim os pretensos “defensores da economia” são os primeiros a indicar que é necessário aceitar a morte de centenas de milhares ou mesmo de milhões de pessoas para que a economia não pare.

Uma contradição em termos, repito, porque um estudo de agosto de 2019 indicou que a única forma de o capitalismo ruir definitivamente é com a diminuição da população, ou pelo menos da população jovem, coisa que as medidas fascistoides de alguns presidentes parecem ensejar. Dito isso convêm perguntar-se: é mesmo pela economia que trabalha essa necropolítica? A economia não estava precisando deste momento de “respiro”? Senão, então quem estava precisando deste respiro não seriam todos os demais?

O twitter está morto. E a manipulação do debate em torno de bots e contas falsas, erguendo artificialmente assuntos tendência para todo mundo ver, só comprova isso. Vivemos uma distopia entediante onde temos toda hora que tentar descobrir se estamos discutindo com uma pessoa ou uma máquina; em um cotidiano teste de turing, com a diferença que nunca imaginamos que seria brigando com um avatar de olho de bandeira do brasil enquanto tentamos explicar que um vírus ser criado em laboratório chinês é bem diferente de um vírus sendo estudado ter sido solto por acidente. E que vírus zoonóticos são cada vez mais propensos a acontecerem à medida que invadimos a natureza.

Com o orientalismo em voga outra vez, unido ao óbvio interesse militar e econômico na derrocada da China, criaram-se muitas situações insuportáveis como aquela onde o nosso ministro da educação repete estereótipos preconceituosos de chineses; este que é um rosto perfeitamente estapeável e que representa tudo o que se despreza na humanidade e na política; a junção da ignorância com a má eloquência; o pesadelo da memética; um frankestein da internet, onde partes tiozão do zap foram costuradas a um psicopata narcisista com diploma (suado, diga-se de passagem) de economista. Esse é o país que habitamos na segunda década do século XXI; nunca quis mais que fosse diferentes, nunca me senti tão distante do que imaginei que seria quando era moleque.

Tarsila do Amaral. Operários. 1933

Hoje vejo claramente que minha admiração pelas “coisas americanas” enquanto crescia era só uma forma de subjugar minha decepção com meu próprio país; entenda, estou no auge desta decepção enquanto escrevo isso e posso nem pensar mais assim em breve, mas dificilmente vou me arrepender também. Minha compreensão do que é ser brasileiro se mistura com a compreensão de um mundo mais amplo e aberto — se mistura com a globalização e o sonho do multiculturalismo, ilusões que se desmancharam no mesmo instante em que caíram as torres gêmeas em 2001.

(…) É prejudicial seguir a marcha daqueles que nos precederam, e como cada um prefere acreditar em outra que não a sua própria opinião, nunca apresentamos um julgamento deliberado sobre a vida, mas algum erro tradicional sempre nos estorva e nos leva à ruína, e nós perecemos porque seguimos os exemplos de outros homens: poderíamos ser curados disso se nos desvinculássemos do rebanho; mas como é, a turba está pronta para lutar contra a razão em defesa de seu próprio erro.

Sêneca. A Vida Feliz . Montecristo Editora. Edição do Kindle.

Por apego à tradição ao certeiro nos perdemos e hoje amarguramos uma política feita para poucos; autoritarismo e patriarcado estão entre os verdadeiros motivos pelo qual eu saí às ruas no protesto “elenao”, mas nunca pensei que chegaríamos tão longe nesta mesma negação; viver em negação é a única coisa que nos separa dos apoiadores desta festa sórdida de militares e baby boomers; a falácia do apostador é a única coisa que me vêm à mente quando tento entender como alguém ainda aceita tal indignidade no poder. Estamos todos perdendo, e assim continuaremos.

Antes que pensem que sofro do complexo de vira-lata: reconheço a grandeza de nosso país à medida que posso. Este é o país dos gênios, da cultura única, do belíssimo português brasileiro; é também país de pessoas criativas e apaixonadas, de espírito aventureiro e empreendedor. Brasileiros incríveis estão espalhados pelo mundo e tenho certeza que eles lamentam tanto quanto eu pelo que estamos passando. Mas acho que, guardando as devidas diferenças, nem mesmo durante a ditadura — e durante o exílio forçado de muitos dos melhores que aqui haviam, o Brasil esteve tão mal.

Talvez nos reergamos, talvez não. A história não se importa com os sentimentos de ninguém e mesmo na mais escura das noites nunca devemos abrir mão da esperança. Como um pai amoroso, que busca sua criança toda vez que sai do caminho, devemos entender que seguir pela retidão nunca foi o forte da humanidade, pois como disse Sêneca: “as coisas não estão tão bem com a humanidade para supormos que a maioria prefira o melhor caminho; quanto mais as pessoas fazem algo, pior é provável que seja”.

A desilusão, portanto, é a única via segura de crescimento que dispomos, e que têm sido abundantes nesses dias; desilusão com os políticos e desilusão com a imprensa; desilusão com o mundo e desilusão com os vizinhos que insistem em fazer baile funk; desilusão consigo mesmo que não consegue abrir mão de carne e desilusão com os Suecos que estão matando seus imigrantes por falta de ação restritiva e quarentena. Desilusão com o Brasil, os Estados Unidos e o Chile, que lideram a frente ocidental pró economia e contra a vida; nada nunca voltará a ser o que era, e mesmo escrever um texto para dizer que não se aguenta mais viver no país é absurdo: que país aceita um brasileiro sem desconfiança agora? Estamos todos presos aqui.

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