Anacronismos, antropofagia e reminiscências

Uma vez um amigo meu me perguntou qual a minha filosofia de vida e eu disse sem pensar muito que era o empirismo. Mas a vida quis que ele se tornasse o cientista e eu o filósofo. Isso foi um pouco depois de ele passar por uma experiência de quase morte com meu primo, e outra pessoa. Um amigo nosso, o Fernandinho, dirigia imprudentemente na rodovia e bateu de frente com um carro ou um caminhão, morrendo na hora.

Tenho pensado muito nesse acontecimento que à época, virou nossa vida e de toda a cidade de cabeça para baixo. Éramos todos muito novos e foi muito triste. Dos sobreviventes apenas meu amigo mudou imediatamente após a experiência, revolucionando toda sua forma de ver a vida.

O insight ali, me parece, foi profundo e permanente — somos todos frágeis demais, e precisamos desesperadamente ajudar uns aos outros. “A vida é tragédia para aqueles que pensam e comédia para aqueles que sentem”. Sem extremismos, o melhor, portanto, é sempre buscar o equilíbrio entre os dois mundos. Mas como? Não há receita nem poção mágica aqui — vamos tateando nosso caminho para fora da caverna, como todo mundo.


A minha vida naquela cidade, com algumas brilhantes e explosivas exceções foi triste; quando não era triste era puramente entediante. Ainda assim, em dias de notícias tão duras e deprimentes vindo de todo o lado, eu gosto de demarcar a alegria do caminho percorrido até aqui, episódios felizes ao lado de amigos e minha família.

Isso porque eu sinto com frequência, como um vento repentino vindo de lugar nenhum, que a minha vida é cheia de momentos ricos e significativos, cheia de histórias, muitas das quais me faltam habilidades para sequer começar a contar.

Talvez por isso seja tão importante ver os amigos sempre que possível — manter a tradição e as lembranças, ainda que ninguém lembre muito bem, ou que cada um tenha visto de uma forma ou de outra. Ademais, existem algumas coisas que só sabemos nós mesmos e que norteiam todas as outras experiências — aquilo que dizem de fazer a coisa certa mesmo que ninguém esteja olhando — não por que exista uma obrigação ou um dever inerente, mas porque, no fim das contas, tudo é sempre sobre nós mesmos e nossa consciência, e nada mais.

Não que essa consciência tenha ela mesma uma existência supraterrena toda-sábia e toda-contemplativa. Não tem, e basta tentar lembrar daquilo que você comeu ontem de manhã para perceber isso. Ou ler os depoimentos daqueles que sofreram ou sofrem de depressão severa ou de perda da fé — uma das coisas mais assustadoras que permeiam em todos estes casos é a percepção de que nosso senso de Eu não resiste a uma análise firme — que basicamente mal-e-mal existimos. Não. Por consciência me refiro a uma presença cotidiana e comum. Mundana. E que contra todas as expectativas é uma das mais difíceis de atingir.

Sexta feira houve uma meditação global pelo aplicativo de teleconferência, diretamente com a participação de um querido professor na Florida, Estados Unidos. Apesar de não haverem lido minha pergunta, eu sinto que a resposta já havia sido dada quando, em uma sequência de momentos felizes, eu e a minha esposa — após ela rezar o terço no quarto, e eu meditar na sala — brindamos aos trabalhadores de todo o mundo, e saboreamos uma refeição simples, mas deliciosa. A minha pergunta era sobre como adaptar a meditação de compaixão em tempos de Pandemia.

Porque é de trabalhadores e direito ao trabalho que se trata, afinal, tudo isso. O homem nasce, cresce, trabalha e morre. A ideia de que o trabalho precisa ter significado é coisa recente e, dizem, coisa de millenial. Nossos avós com 25 anos de idade já tinham três filhos, carro e casa — o propósito surgia “a posteriori”, por assim dizer. Trabalhar, eu vejo nos meus pais, por exemplo, é uma justificativa em si mesma, e não precisa de mais explicações. Tanto é que mesmo que eles ganhassem na loteria e nunca mais precisassem levantar uma pena, com um empregado para cada coisa, eles ainda não seriam capazes de ficar parados, sob pena de entrarem em tristeza profunda.

Diferente de meus amigos, portanto, que ficam vivendo sem dinheiro e só de bicos e nada mais, se as opções não forem melhores que aquilo que já buscam. E tenho visto isso dar muito certo para a maioria deles (guardadas as devidas ressalvas para uma economia que sucumbe ano após ano), que se realizam não apenas no plano profissional, mas também no relacional, intelectual e emocional.

Porque para alguém ser feliz, ou ao menos não-infeliz, está mais relacionado àquilo que temos e sabemos que não faltam a todos — assim como à nossa percepção de que aquilo que temos é aquilo que se encaixa no nosso propósito. Como diz o filósofo, quem tem “porque” pode aguentar qualquer “como”.

Eu tenho amigos que são pais de família, amigos que são ex-viciados e ex-moradores de rua. Amigos que são programadores liberais e amigos que são entregadores ciclistas de aplicativo. Amigos que querem acreditar que existe vida alienígena e amigos que não acreditam que o homem pisou na lua. Amigos que tomaram chá de cogumelos comigo e amigos que estavam comigo no dia em que me casei na Santa Igreja. E eu ainda sinto que é pouco, para tudo o que a vida tem para oferecer. Mas é preciso se doar, cada vez mais até o fim dos dias.

Daytripper #5 [Textless] (2010)

Existe uma obra em quadrinhos maravilhosa chamada “Daytripper”, em que o protagonista, Brás, é um escritor de obituários. Ele mesmo morre inúmeras vezes ao longo da história, denotando a metalinguagem própria da vida, a saber, que é preciso morrer para poder viver. Isso remonta à filosofia clássica que diz que é preciso saber morrer para saber viver, mas isso não é tão simples quanto parece.

Isso porque temos a mania bastante comum de confundir os meios com os fins e supostamente morbidez com contemplação. Assim, um escritor gótico como Edgar Allan Poe, que foi um brilhante criador de mundos sombrios e duradouros e um dos melhores contistas da história, teve uma vida foi cheia de amargura e erros facilmente evitáveis. O mesmo se aplica a Jack Kerouac que morreu prematuramente embora admirasse o budismo e tivesse criação cristã. A história é cheia destes exemplos e me faz pensar se houve alguma escolha da parte destas grandes personalidades, porque se há eu já fiz a minha, a saber, viver uma vida longe de grandes tribulações, mesmo de grande criatividade se preciso for e se isso significa viver precariamente.

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