A arte é de viver na fé (só não se sabe fé em quê)

Vejo que não há mais no mundo nem fé nem verdade, mas imagino que haja ainda um resto de senso comum. O que você acha, Jaskier? Existe ainda senso comum no mundo? Ou será que, em vez dele, sobraram apenas o desprezo e mau-caratismo? Tempo Do Desprezo (Andrzej Sapkowski) — The Witcher #3

Venho trabalhando em um artigo para fazer um projeto de mestrado já fazem alguns dias. Ainda não está pronto, longe disso, mas me leva a outras questões mais gerais como globalização, territorialização e projetos de superação da hegemonia do capital sobre a vida cotidiana. Venho me perguntando cada vez mais sobre o mito da humanidade como uma única família, por exemplo. Hoje sabe-se que como espécie, não somos iguais nem mesmo em nossas bases genéticas — os sapiens se misturando com os neandertais e denisovianos por exemplo, a ponto de termos na de 4 a 6 por cento de DNA desta espécie na população das ilhas da Melanésia, e 20% da população mundial com genes neadertais em introgressão. Os neandertais foram extintos, supostamente, há 40 mil anos atrás.

A questão da globalização me vêm à mente justamente no ensejo de se perguntar se o projeto do homem sobre a terra chegou ou não a um fim — ou se ao menos está próximo disso. A verdade é que eu realmente não sei se preciso desta resposta e na imprecisão do objeto encontro muitos mais motivos para me manter quieto do que para fazer perguntas. Se somos sete bilhões e não somos capazes de, em hipótese alguma, calcular as possibilidades de existências e filosofias de existência que nascem a cada momento — assim como as possibilidades de inventividade e criatividade, então de que me serve falar qualquer coisa? ainda assim foi com essa premissa que comecei meu projeto.

Também, ainda na esteira desta dúvida paralisante, eu gostaria de saber porque afinal eu me identifico com uma pessoa qualquer que seja, ainda que seja alguém de outra época e outra cultura, mas, sobretudo, porque me identifico com alguém desta mesma época apenas porque lá onde ele vive também tem coisas como internet, coca cola, reality show ou coisas como memes sarcásticos com um quê de ingênuos ao mesmo tempo que tenta contextualizar os temas políticos mais recentes? Colocando em contraste, como posso saber mais sobre o dia a dia de um americano médio do que sobre a vida de um indígena vivendo no xingu? A empatia aqui, a conexão com o outro, é um projeto social ou meramente uma habilidade humana ancestral que nos manteve vivos? onde começa a sociedade e onde começa o indivíduo?

Somos sete bilhões, mas de todos estes que realmente são autênticos, no fim das contas, são bem poucos. Falar de autêntico aqui é partir de em um ponto de vista bastante específico, que é o conceito filosófico existencial usado por Jaspers e por Heidegger, que é a indicação do ser próprio do homem — tudo aquilo que consigo nasceu e que não foi adquirido nem imitado de outros. É o simétrico oposto de mera cópia ou falsa autenticidade. É a escolha feita por cada um à luz do desespero e da angústia que nasce da constatação de que somos mortais (ABBAGNANO, Ed. Martins Fontes). Em tempos de discussões sobre a privacidade dos dados e big data, a discussão da autenticidade é mais atual do que nunca.

O big data nada mais é do que a capacidade computacional (e somente computacional) de gerar novos insights estatísticos a partir de grandes (muito grande mesmo) bancos de dados. À luz do vazamento de dados privados de brasileiros de mais de 90 milhões de pessoas, e de 70 milhões de motoristas, não é muito difícil imaginar o que uma empresa ou organização má intencionada e com domínio de big data poderia fazer com estes dados. Isso porque no fins das contas, nós como espécie e também como indivíduos, somos muito previsíveis. E isso também é uma discussão da autenticidade, pois a inautenticidade faz parte da estrutura do ser tanto quanto a autenticidade. É mais ou menos como ficou ilustrado no fim da segunda temporada de Westworld; achamos que somos profundos e complexos, mas poderíamos ser facilmente reduzidos a alguns algoritmos fundamentais e reproduzidos infinitamente em um simulacro.

fonte: https://jezziebell.com/2018/07/02/library-of-souls/

Isso é um pouco revoltante e desconfortável para dizer o mínimo. “Como assim, eu caibo em um pen drive?” . A negação bate forte, como prediz o Modelo de Sofrimento de Kübler-Ross. É algo muito semelhante ao luto, ou um coração quebrado. Da minha parte eu acho que não há nada que fazer; não na parte da ficção científica, mas na questão da autenticidade. Se nós como espécie não estamos mais na coroa da criação, se é que alguma vezes estivemos, é um bom momento para trabalhar naquilo que ainda somos bons. Compaixão, empatia, bondade e fraternidade. Uma ética baseada somente em ciência não é possível, e talvez nem mesmo desejável, mas ressonâncias cerebrais de alguns meditadores em meditação de compaixão já provaram que somos capazes de moldar nossa própria estrutura cerebral para derrubar barreiras que nos impedem de ver o próximo.

Eu tenho algumas semanas apenas para entregar meu trabalho de mestrado, e decidi de veneta por este novo desafio. É um desafio realmente digno deste nome: além da etapa do projeto, tem uma prova escrita e uma defesa. Minha experiência é restrita a graduação e escolhi uma linha de pesquisa que prima por leituras e releituras de arte e filosofia contemporânea, o que não é nem de longe minha área. Meu grande incentivo e também meu maior obstáculo é pensar que os resultados deste projeto devem beneficiar a sociedade. Sei que até o fim da pós muita coisa terá mudado no projeto original, mas ainda desejo começar da maneira correta, pelo bem da ciência.

No momento estou no início da pesquisa para o projeto, e me sinto ainda a vacilar. Me preocupa ter que abandonar meus prazeres desleixados como escrever aqui e abandonar minha série ou meu livro favorito, afinal, não contribui com minha tese. Eu sei também que uma pós, em geral, é apenas uma medida utilizada para começar uma carreira acadêmica, o que é bem legal, mas que é imprescindível de uma vontade profunda de ensinar — quem já teve um professor que só quer pesquisar e dá aula por obrigação sabe do que falo. Mais ainda, precisa ter uma fé inabalável na ciência e na pesquisa acadêmica que caminha a passos muito lentos, às vezes voltando outros tantos. Esta mesma fé pede que aceite que façamos pesquisas que terão pouca relevância justamente pela estrutura como nossa sociedade está organizada, senão nossos próprios cérebros, que preferem sempre a recompensa imediata ao invés de esperar pela grande recompensa do final. Finalmente, toda especialização é sempre saber mais sobre menos, o que é fascinante mas um pouco cansativo. É preciso saber conciliar o homem das cavernas com o homem da pesquisa, e isso é absurdamente difícil. Como disse Heinlein em uma citação que está entre as minhas top 10:

Um ser humano deve ser capaz de trocar uma fralda, planejar uma invasão, cortar um porco, guiar um navio, projetar um edifício, escrever um soneto, equilibrar contas, construir uma parede, colocar um osso, confortar o moribundo, tomar ordens, dar ordens, cooperar, agir sozinho, resolver equações, analisar um novo problema, fazer esterco, programar um computador, cozinhar uma refeição saborosa, lutar eficazmente, morrer galantemente. A especialização é para insetos.
- Robert A. Heinlein

Especialização é para insetos. E se os homens no fim das contas agem como algoritmos programados, em uma rede de escolha razoavelmente comum, não fica difícil concluir que professores são como insetos e universidades como colméias ou formigueiros. O mesmo vale para os traders e a bolsa de valores ou os adolescentes e a danceteria. A estrutura é tal que não vale a pena discutir; mas o espírito do tempo, das pessoas e das sociedades são sempre cambiantes, e isso sim é algo que chama a atenção. As pessoas costumam rotular a mudança como inimiga, mas isso é um erro. A mudança é inevitável, e lutar contra algo inevitável é inevitavelmente falhar. O tempo, tampouco, não pode ser inimigo, ele é apenas algo mais que uma ilusão para quem o olha de frente. A cultura, isso sim, manifestação do tempo, ela sim pode ser contestada, ou ao menos analisada, compreendida e catalogada. Nela está a poeira dos dias, a matéria dos sonhos.

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