A guerra não tem rosto de mulher (Aleksiévitch, Svetlana)

ROZA Roza Yegorovna Shanina foi uma franco-atiradora soviética durante a Segunda Guerra Mundial, creditada com 54 mortes confirmadas, incluindo 12 atiradores inimigos durante a Ofensiva de Vilnius

Algumas anotações, que longe de darem uma conclusão ao assunto, falam mais de mim do que da história em si (porque objetivismo absoluto nunca existiu).

“Não ganhei muitos cristais, como está vendo. Tudo o que eu e meu marido acumulamos está guardado em uma caixa de bombons feita de lata: duas condecorações e medalhas”.

Este livro-documento que estive lendo — A guerra não tem rosto de mulher, é um livro que procura retratar a mulher que foi à guerra, da antiga União Soviética — com relatos das sobreviventes da segunda guerra mundial. É uma história que procura dar justiça às vozes caladas pelos outros — homens e sociedade machista.

Para mim é um livro com Verdade & Dor em cada parágrafo, que abriu meu olho para as injustiças do mundo e especialmente com as mulheres. Não poderia recomendar mais. E embora eu tenha gostado muitíssimo do Vozes de Tchernóbil, por causa da imaginação de uma vida toda atiçada pelo assunto, este livro aqui é uma obra de grande importância no momento em que vivemos e especialmente por causa disso.

A União Soviética e o comunismo stalinista já não existem mais, e embora o comunismo como Marx idealizou nunca tenha acontecido, temos que conviver, quase diariamente, com os comentários rasos de que o comunismo tem que ser combatido. E embora eu não me considere comunista de maneira particular — acho que vale a pena fazer uma incursão pela história para entender de que comunismo esse povo especula tanto. Neste caso em qual fonte de informar é uma questão chave. Quem melhor do que alguém de lá mesmo?

Aí é que os livros da Svetlana Aleksiévitch (prêmio nobel de literatura em 2015, excepcionalmente a uma mulher e a uma mulher que não escreve ficção) entram. Não julga mas se mantém imparcial. Foi uma das melhores descobertas do último ano, e eu sei que ainda vou ler os outros livros dela em breve porquê neste mundo de desinformação ela se mantém confiável e acessível.

Não tinha nada no mundo mais importante para mim do que meu amado pai. Era a pessoa mais próxima de mim. A única. Comecei a pedir: ‘Quero me vingar. Quero acertar as contas pela morte do meu pai’. Queria matar… Queria atirar… Apesar de terem me mostrado que, na artilharia, o telefone era muito importante. Mas o gancho do telefone não atira…

A guerra. A guerra é uma loucura. A grande festa da morte. Do lado soviético da guerra, ainda mais, sendo o país que mais perdeu pessoas no conflito. Como um livro de heróis que a gente ouve de nossos pais quando criança, assim acontece na vida real: você vive sua vida simples, normal, comum, até que um dia seu mundo é brutalmente destruído. O que as histórias de heróis não contam é que muitas dessas pessoas eram meninas que nem tinham dado o primeiro beijo, e muito menos pego em armas. Em instantes elas se transformam em soldados e estão prontas para matar.

Casa é algo maior do que as pessoas que moram ali dentro, é maior que a própria casa. É uma coisa… Uma pessoa precisa de uma casa… Tiro o chapéu para minha madrasta, que me recebeu como uma mãe. Depois, comecei a chamá-la de mãe. Ela me esperou muito, me esperou muito. Apesar de o diretor do hospital ter escrito que amputariam meu pé, que me mandariam de volta inválida.

Gosto de muitos desses relatos embora eles muita vezes sejam contra-intuitivos. A realidade não é nada daquilo que a gente espera. E na tragédia cotidiana da guerra a ajuda vem quase sempre de onde menos se espera. Eu me apavoro, não importa quantos livros de guerra eu leia. Certamente eu não sou capaz de entender a guerra, e na leitura deste livro o que eu consegui me aproximar só o foi através da caridade destes depoimentos destas mulheres que fizeram um esforço descomunal para desenterrar estas lembranças.

E a guerra não acaba após a vitória — mesmo vitoriosas elas tinham que reconstruir a vida, superar o preconceito contra as mulheres na guerra e recuperar uma feminilidade perdida.

No começo era muita alegria, depois o medo: o que vamos fazer na vida civil? Um medo diante da vida em tempos de paz… As amigas da universidade já tinham se formado, e nós? Não estávamos adaptadas a nada, não tínhamos nenhuma formação profissional. Só conhecíamos a guerra, só o que sabíamos fazer era a guerra. Queríamos nos afastar da guerra o quanto antes.

A guerra, e o conflito de uma maneira em geral, é uma constante na história humana. Só quem vivenciou um conflito pode almejar a trégua. Alguns historiadores dizem que as guerras estão caras demais, perigosas demais e por isso estamos vivendo um tempo sem guerras sem precedentes na história. Mas isso não exclui os conflitos internos. Estes estão, pelo contrário, proliferando. E é sempre relacionado a um salário que não sobre, o colega que ganha mais… os amigos que tem filhos ou que viajam o mundo, o sonho que nunca se realiza. O pior conflito é o interno por que ele não te dá trégua em momento algum. Mas as mulheres sobreviventes tinham que superar ambas as dimensões do conflito:

No começo nos escondíamos, não usávamos nem as medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos. Era completamente diferente… Vou lhe dizer, tomaram a vitória de nós.

e ainda:

Não dividiram a vitória conosco. Isso era ofensivo… Incompreensível… Porque, no front, os homens tinham uma relação maravilhosa conosco, sempre nos protegiam; na vida de paz, nunca vi nos tratarem bem assim.

O que houve? porque nem mesmo uma Guerra Mundial consegue extinguir, ou pelo menos atenuar, o machismo e patriarcado de uma sociedade?

Começaram a falar sobre nossas meninas… E aí eu desandei a chorar: ‘Vocês falam de honra, de glória. Mas essas meninas estão quase todas sós. Solteiras. Morando em apartamentos comunitários. Quem teve pena delas? Quem as defendeu? Onde vocês foram parar depois da guerra? Traidores!’. Enfim, estraguei o clima de festa deles.

A União Soviética foi, isso sem sombra de dúvida uma superpotência. Eles quase chegaram à lua antes dos norte-americanos, eles criaram bombas atômicas e um dos exércitos mais poderosos do mundo. Ainda hoje os Estados Unidos os respeitam pelo seu poder — mas a União Soviética também fez coisas horríveis, com e sem Stálin. Não podendo decidir que lado tomar, é preferível se manter imparcial ao que se refere a este episódio da história. Ainda assim, algumas coisas não podem ser relevadas e definitivamente a injustiça com as mulheres que foram e venceram a guerra é uma das maiores da História da Humanidade.

E me pedia perdão: ‘Vália, não tenho o que falar para você, só posso chorar’. Mas não precisa ter pena de nós. Temos orgulho. Que reescrevam a história dez vezes. Com Stálin ou sem Stálin. Mas isso vai ficar: nós vencemos!

Como disse um amigo — não deve de ser questão de gênero, na luta pela igualdade de gêneros, mas de empatia pessoal. Os maridos amavam a suas mulheres, e os soldados se repeitavam mutuamente. Ainda assim nenhum deles teve chance de mudar o status quo da sociedade machista de sua época. Entendo que um homem sofra por não haver reconhecimento ao esforço de sua mulher — uma dor que se multiplica à medida que aumenta a intimidade — e não há intimidade maior do que a que a guerra proporciona. Mas a política está aí para criar meios mais próximos da justiça . No entanto a União Soviética acabou e começam a morrer os sobreviventes desta guerra sem terem seu quinhão de reconhecimento. Ainda assim podemos aprender muito com eles…

Se você dizia ‘mamãe’, já era uma palavra totalmente diferente, se dizia ‘casa’, era uma palavra totalmente diferente. Algo foi acrescentado a elas. As palavras carregavam mais amor, mais medo. Algo mais…

O ser humano não foi feito para a guerra.

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