A inutilidade da fuga e a descrença em nossa sociedade de lidar com pessoas imperfeitas

broboleta-sonho The Butterfly Dream, by Chinese painter Lu Zhi (c. 1550)

O deus do Mar do Sul era Rápido; o deus do Mar do Norte era Súbito. O deus do centro era Hundun.

Rápido e Súbito encontravam-se frequentemente na terra de Hundun, e Hundun acolhia-os com grande cortesia. Rápido e Súbito fizeram um plano para devolver a generosidade de Hundun.

Todos os homens têm sete orifícios”, disseram eles, “para que possam ver e ouvir, comer e respirar”. Só o Hundun não tem nenhum. Por que não os ponhamos para ele?

Todos os dias, eles punham um orifício, e no sétimo dia, Hundun morreu.

Antiga lenda chinesa segundo Chuang Tsu

Eu sou condicionado pela amnésia alcoólica. E não, isso não é uma daquelas desculpas para fazer o que quiser quando estiver bêbado e depois alegar desconhecimento — eu simplesmente apago tudo, com apenas algumas lembranças ocasionais. Isso é raro e precisa, até onde eu sei, de um contexto específico e de uma grande quantidade de álcool para acontecer. Assim sendo, não é tão disparatada a ideia de que bebemos para fazer aquilo que não faríamos sãos, mas também não é perfeitamente precisa. No dia seguinte não me lembro de absolutamente nada o que implica que não envolveu sequer aprendizagem. Mais profundamente implica que não envolveu nem mesmo a personalidade, pois esta depende da memória.

Falo estas coisas porque leituras de psicologia sempre foram um assunto fascinante para mim e, o que é mais fascinante, saber que posso ser a cobaia de meus próprios experimentos psicológicos — primeiramente refletindo nestas ocorrências de um ponto de vista cético — sem ser de corrente behaviorista ou determinística mas ainda assim com um olhar voltado para fora, onde posso entender aos poucos como se deu meu desenvolvimento e onde ainda resta muito o que completar. Outra vez, isso é trabalho amador, e não posso dizer sequer que é ciência — sem uma comunidade de verificação de hipóteses, sem pesado trabalho bibliográfico, e que estaria mais para um experimento mental.

E o que estes experimentos revelam? Que me ancoro na cultura da personalidade para existir. Isso é meio óbvio, mas quando esta mesma personalidade é confrontada consigo mesma, em situações conflito com grande carga emocional — como na presença de alguém que me traumatizou ou em uma briga com os pais, por exemplo, ela parece desaparecer, e consigo toda a memória do ocorrido, que em geral é uma grande explosão de impulsos físicos e verbais — e acredito que seja somente porque em situações assim ela, a personalidade, se torna irrelevante — algo realmente inconcebível — ou se transforma em máscara de indiferença, algo que dá para compreender quando se tem uma carga emocional muito grande. Uma mentira, afinal, só passa por verdadeira quando o próprio mentiroso acredita nela.

Não que isso importe — não temos tempo nem energia para resolver cada pequeno detalhe de nossos problemas de desenvolvimento, e a verdade é que nem precisamos. Quando me meto a resolver minhas questões a ponto de tentar se tornar perfeito rapidamente descambo para um transtorno de personalidade evasiva — fugindo para um sítio, para um retiro, para outro país porque “não preciso de mais ninguém” — já fiz isso muito mais vezes que gostaria de admitir e sempre tive de voltar, o que demonstra a inutilidade da fuga e a descrença em nossa sociedade de lidar com pessoas imperfeitas. O que é uma grande balela, se pensarmos bem. A sociedade moderna é exatamente este fruto de nossas tentativas de conviver com o disfuncional de uma maneira funcional. Na esquina de cada igreja, se você observar bem, sempre há um bar, assim como nas esquinas de cada escola e universidade.

A Torre de Babel (Bruegel) óleo sobre painel, 1563

Buddha e Mara

Estavam caminhando outro dia

Eles passaram uma floresta maravilhosa

selvagem, livre e pulsante de vida.

“O que é aquilo?” perguntou Mara.

“Por que, aquilo é a Verdade”, respondeu Buddha.

“Dê-me,” respondeu Mara

“E Eu irei mapeá-la, organiza-la cataloga-la

publicar um livro, abrir uma pagina na rede,

e ensiná-la na universidade!”

Ian Mccrorie — The moon appears when the water is still — tradução livre

Recentemente, coisa de duas semanas atrás, um amigo meu passou uma semana aqui. Ele já tem vinte e tantos anos e tenta se recuperar de uma vida devastada pelas drogas (e por drogas digo drogas pesadas como pasta base) e pela indiferença familiar. Ele sequer tinha documentos há alguns anos atrás. Vivia de pequenos empregos por pouco tempo e passando algum tempo em centros terapêuticos de recuperação — o que ele me disse que não era traumático nem regido por pessoas más, contra minhas expectativas contrárias. Ele recentemente conseguiu fazer identidade e carteira de trabalho — uma coisa que pode parecer banal mas que foi um marco na vida dele. Ele que viveu na rua todos estes anos e que não gosta nem de passar perto do Morro da luz por causa das más lembranças.

Aqui em casa ele só teve um teto mesmo. Apesar de sermos muito próximos em pensamentos, não pudemos construir uma ponte sobre o abismo da necessidade material; como falar de quadrinhos e séries, livros e filmes quando você sabe que a pessoa está lutando pelas necessidades mais básicas como o pão do dia seguinte e um teto para morar? Ajudei como pude, e demos alguns utensílios domésticos para ajudar quando ele partiu, mas às vezes me via rapidamente no papel de coach dizendo que “você tem que superar o seu passado e seus erros e correr atrás de seus sonhos”. A intenção não era, no entanto, nenhuma além de apontar um propósito, eu juro. Hoje ele mora em uma quitinete que ele pagou com o trabalho de uma semana em uma construção. A mesma semana que passou aqui.

As coisas são assim mesmo. Parecem levar uma eternidade para serem construídas e um segundo para caírem ao chão. A sorte, como o vento, parece soprar onde lhe apetece. A nossa força como sociedade está em permitir a ascensão de indivíduos em velocidade estonteante, e sua fraqueza não está em deixa-los cair na mesma velocidade. Quanto mais penso nisso mais inércia sinto em tudo que faço e penso; o mundo não é um moinho, está mais para uma montanha russa. Às vezes uma roleta russa.

Minha mãe esteve aqui na cidade esta semana e foi uma verdadeira bênção do universo tê-la comigo, ainda que por apenas dois dias. Ela não estava em seu momento mais brilhante no entanto — me falando que eu deveria ter um filho para dar a ela um neto etc. — e culpo o luto pelo que passa, e aproveitei para fazer uma propaganda do uso de chá de santo daime para se reconectar com uma fonte pura de sabedoria, cura e luz; nada me tira a convicção de que pessoas em luto, ou lutando por um sentido para viver são as pessoas que mais tirariam proveito de uma sessão com o poderoso enteógeno xamã. É tudo uma questão de mudar a sua mente, afinal. Também, fiz questão de dizer a ela que ela era a verdadeira responsável por tudo de bom na minha vida e que, mesmo que nada possa ser mudado, tudo teria sido diferente se ela houvesse tentado me criar sozinho — sem julgamento de valores, apenas fatos. Tenho certeza de que ela teria competência mais do que a necessária, no fim das contas.

A verdade é que ela poderia até mesmo ter me abortado e não faria a mínima diferença — esse é o tanto em que confio nela. Não posso saber como eram as coisas naquela época, e muito menos o que era esperado de uma mulher jovem, solteira e grávida nos anos oitenta, mas mesmo assim... Ela me respondeu que nada do que aconteceu pode ser mudado, mas ela não deve ter ideia de como sou teimoso — afinal, eu sou como meu pai que adora reviver o passado e pensar em como tudo poderia ter sido diferente — ele que poderia ter se aposentado como policial militar ou ter tido um fim tão trágico como o do irmão, também policial.

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