A Vida Não Passa de Um Sonho

capa Sonho do eunuco 1874 Jean Lecomte du Nouÿ

O propósito que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse projeto mágico havia esgotado completamente o espaço de sua alma; se alguém tivesse lhe perguntado seu próprio nome ou qualquer traço de sua vida anterior, não teria dado com a resposta.

Borges, Jorge Luis. Ficções — Conto As Ruínas Circulares. Companhia das Letras. Edição do Kindle.

Minha avó morreu, no hospital Santa Casa em Campo Grande em 14 de maio e no dia seguinte foi enterrada na minha cidade natal, Iguatemi. Não pude ir devido à pressa dos acontecimentos. Também, ninguém passou por aqui de carro a tempo; embora Campo Grande fique relativamente perto de Cuiabá, Iguatemi fica bem mais longe e só mesmo de carro eu poderia ter chegado lá a tempo de acompanhar o enterro.

Estive, felizmente, em Campo Grande em 15 de abril, um mês antes, para visita-la no leito; já haviam me avisado que era importante vê-la porque poderia ser uma última vez; no entanto eu não achei que ela estivesse tão mal quando a vi. Será que eu vi corretamente? Será que apenas contemplei a força de seu espírito e não atentei para a fraqueza do corpo, a minha percepção me enganando?

Campo Grande é a cidade da minha adolescência, uma vez que estive lá há cerca de vinte anos tentando começar uma vida de estudante. Já então minha mãe e meu pai se esforçavam para me dar a melhor educação possível e quando fui lá morar com meus tios eu tive a chance de estudar um tempo em um colégio particular. Não deu certo. Eu era muito instável e tinha só quinze anos; não me habituei e ainda tive meu coração quebrado por uma garota mais velha. Voltei para o interior seis meses depois, mas já fizera bons amigos lá. Também, gostara da cidade grande e voltaria lá três anos depois tentando ganhar a vida.

Era época da popularização da internet. Lan Houses e mIRC; o MSN e ICQ também começavam a se popularizar. Eu conheci tudo de uma vez: Magic the gathering; Spawn; Cinema (assisti Beleza Americana quando saiu no Cinemark); The Beatles e aprofundei-me no sistema cabeçudo de RPG, Gurps. Andei pela primeira vez de coletivo lá, e lembro que na primeiríssima vez eu entrei pelos fundos de um e todo mundo ficou olhando; também, sofri bullyng no primeiro dia de colégio, mas acabei superando, tornando-se inclusive amigo dos bullies; andava por muitas horas para cima e para baixo, fazendo reconhecimento de território, se aparecendo, por assim dizer; quando somos assim tão jovens achamos que somos os primeiros em tudo que fazemos. Eu achava que tinha inventado o Flâneaur.

Por isso que quando desembarquei lá em abril deste ano eu não pude evitar a onda de lembranças — tinha o prazo apertado precisando estar no escritório de volta na segunda feira, e queria ao menos ir ver um amigo antes de voltar, além, é claro, de ver minha avó e passar um tempo com minhas tias. Andando de ônibus dentro da cidade, descobri que nem mesmo sabia onde estava ou estava indo. Iria conhecer a rodoviária “nova”, diferente da famigerada rodoviária de Campo Grande, também em outra direção; a antiga rodoviária poderia ser feia mas pelo menos ficava perto de “tudo”, por assim dizer. Nessa nova eu já não sabia me localizar.

Campo grande possui ruas invejáveis; não conheço Curitiba, que tem a fama de ser uma cidade com bom arruamento, mas se eu fosse um carro adoraria viver em Campo Grande. São largas e bem sinalizadas. Também existe boa arborização nas vias; dito isso, emendo que não sou um carro e tenho cada vez menos vontade de ser um; ainda que eles sejam a forma de vida dominante na Terra, como disse Ford Prefect. Se me lembro bem, Campo Grande tinha um sistema ok. de ônibus, e eles usavam o sistema de terminais. Mais uma vez, lembranças variadas de uma vida passada entre ônibus e terminais, ouvindo música, romantizando a vida. Não acho que seja tão romântico assim quando se pensa que da periferia ao centro, no horário de pico o ônibus poderia levar até duas horas (Campo Grande é uma cidade espalhada).

Peguei um uber assim que desembarquei; era um dia bonito, sábado de manhã. O uber era muito bom; simpático e habilidoso, conversamos bastante. Ele me falou da preocupação com a segurança e sobre outros aplicativos em operação; a viagem foi rápida e ao som do sempre presente sertanejo universitário, que é a trilha sonora da cidade. Recentemente saiu um artigo (onezero) que diz que a razão de motoristas de aplicativo ouvirem estas músicas ruins nem sempre é por gosto pessoal; está relacionado a adotar um espaço musical seguro (com poucas chances de desagradar) e em manter as estrelinhas lá no alto.

Na casa da minha tia mais lembranças; memórias sobrepostas à realidade — era esta a casa onde passei o supra-sumo da minha adolescência; aqueles quinze anos mágicos onde tudo é possível e tudo tem um brilho próprio. A casa mudara muito, como não poderia deixar de ser. Os meus primos não moravam mais lá e nem havia aquele “puxadin” lá no fundo que eu e o Rodrigo dividimos. Meus tios tinham uma mercearia do outro lado da quadra e que se ligava com a casa principal, “furando” a quadra por assim dizer. No meio do caminho tinha um estoque com um quarto em que eu e o Rodrigo moramos; mas ele não estudava na mesma escola e estava lá antes de mim. Era ajudante na mercearia dos meus tios, onde eu logo me tornaria também.

De volta a 2019. Na casa da minha tia estavam lá todas as irmãs. Já estavam lá há algum tempo, desde que a situação da minha vó ficara mais preocupante. Estiveram ao lado dela o tempo todo e nunca a deixaram só, inclusive fazendo disputas para ver quem ia ver ela. Como dizem, não só quem nos menospreza nos prende ou nos impede, mas quem nos ama pode, por excesso, fazer o mesmo. Não estive lá durante tanto tempo para dizer que foi esse o caso; até porquê rapidamente se definiu que eu iria aquela noite mesmo ver minha avó. Me acompanharia a filha caçula da minha vó, a tia Ivonete.

A santa casa é o maior hospital da cidade, creio eu. Ocupa várias quadras e parece que passou por uma recente ampliação, com instalações de um branco cristalino e longos e labirínticos corredores. Em 2004 eu morei ao lado deste mesmo hospital, e trabalhava no MacDonalds na Afonso Pena. Era de dar pena; e eu passei muito tempo sozinho nesta segunda vez na cidade grande. Tinha acabado de se separar do que eu achava ser o amor da minha vida; era época da Copa do Mundo de 2004 quando eu mais uma vez abandonei a tudo e voltei para o interior; ia fazer dezoito anos.

Dentro do hospital com minha tia Ivonete começamos a seguir um grupo de familiares com o consentimento deles. A apreensão de minha tia em se perder logo se justificaria, pois os corredores do hospital eram mesmo compridos e o lugar onde nós íamos — o CTI — era muito bem escondido. Enquanto íamos conversamos brevemente, primeiro sobre levezas, e, na volta, já mais sérios, sobre como estavam nossos parentes. Eu levei meu celular comigo, mas no silêncio completo, nem quis pegar nele. Minha tia não teria o mesmo problema e filmaria minha vó para mostrar para o restante da família.

O CTI é uma grande enfermaria com leitos dispostos ao longo das paredes e voltados para o centro; no centro uma grande central de computadores e medidores; uma bancada oval que separa os enfermeiros e médicos em uma mini central; dali eles acompanham os pacientes. Tudo muito moderno e organizado. Talvez por isso eu fiquei seguro em relação ao estado da minha vó; ela parecia estar em boas mãos.

Ela dormia e tivemos que despertá-la.


Minha vó nasceu em 41. Assim que a Segunda Guerra estourou na Europa. Tinha 78 anos, portanto. Quantas coisas ela viu, quantas coisas ela viveu. Que saudade tenho dela agora. Minha mais antiga memória dela remonta aos meus 12, 13 anos, quando fui lá em Iguatemi e conheci melhor a cidade onde nascera. Ela tinha um hotel, e na frente do hotel um bar, onde ela vendia bebidas. Muitos velhinhos jogavam dominó ali nas mesas, e eles faziam aquele jogo tão fácil parecer uma grande e seríssima disputa. Na frente do hotel uma árvore com flores vermelhas, no rádio a canção “Vermelho” da Fafá de Belém. Iguatemi é uma cidade de velhinhos fofinhos na minha memória. Eu mesmo sou, nesta memória, um menino-velho deitado o dia todo, lendo um livro no quarto deste hotel; lá fora o ruído da rua e das tias a me chamar, mas eu gosto mesmo é do livro que estou lendo.

Recordou que, de todas as criaturas que compõem o globo, o Fogo era a única que sabia que seu filho era um fantasma. Essa recordação, apaziguadora de início, acabou por atormentá-lo. Temeu que seu filho meditasse sobre esse privilégio anormal e descobrisse de algum modo sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! A todo pai interessam os filhos que procriou (que permitiu) numa mera confusão ou felicidade; é natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensado entranha por entranha e traço por traço, em mil e uma noites secretas.

Borges, Jorge Luis. Ficções — Conto As Ruínas Circulares - . Companhia das Letras. Edição do Kindle.

Minha vó morreu após várias idas e vindas ao CTI; ora eu recebia notícias boas de que ela se recuperava, outrora notícias de que ela voltava para o tratamento intensivo; isso durou um mês — que acabou com esse grande sofrimento que preenche a vida em todos os cantinhos; minha mãe estava tão ansiosa que teve que tomar calmantes pesados e dormiu um dia inteiro depois do enterro. Na volta dela e passagem por Cuiabá eu não consegui vê-la devido à uma falha de comunicação. Só consegui na ocasião do aniversário do meu avô cerca de duas semanas depois.

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