Abril é o mais cruel dos meses

Rocks, Gloucester

Abril é o mais cruel dos meses, criando

Lilases na terra morta, mesclando

Memória e desejo, atiçando

Raízes tardas com chuvas de primavera.

O inverno nos agasalhou, cobrindo

A terra de neve esquecida, nutrindo

Pouca vida com tubérculos secos.

O verão nos aturdiu, chegando pelo

Starnbergersee

Com rajadas de chuva; paramos na colunata,

E seguimos sob a luz do sol, ao

Hofgarten,

E bebemos café e conversamos uma hora.

Eliot, T.S.. Poemas . Companhia das Letras.

Eu passei, após três etapas sucessivas de provas e muitas noites sem dormir, no Mestrado oferecido pela Faculdade de Comunicação e Artes da UFMT; junto a esta última etapa também se vão as últimas semanas de 2019, e o alvorecer de uma nova década, a década que marcará o fim do primeiro quarto de século.

Quero agradecer ao apoio de meus amigos da Aldeia do Gás Oculto, que me acompanharam em cada etapa, sempre me apoiando, à minha esposa e suas pacientes revisões, à minha mãe por se interessar sempre desinteressadamente, e, indiretamente, às Pedras do Caminho, que me deram mais força de vontade de correr atrás desta renovação em minha vida. As pedras que então quebravam meus ossos irão agora construir o altar do meu amor.

(E meu amor é o amor por toda a humanidade, e por quem, por ventura, esteja lendo isso. É o amor incandescente e fugaz do intelecto pela verdade, mas também é o amor inabalável sob o morro, orientando os navegantes perdidos como faz o farol. É o amor de que falam os profetas, mas também é o amor que falam os bêbados, os ressentidos e os desconsolados. O amor de quem ajuda reclamando, e o amor de quem não reclama mesmo sendo injustiçado. Que 2020 seja dez vezes mais intenso.)

ECCO, como é chamado o projeto de pesquisa em Estudos de Cultura Contemporânea, é um projeto interdisciplinar criado em julho de 2007 — o mesmo ano em que entrei no meu primeiro curso na universidade. Como um chamado, sinto firmemente que é esse o momento, a deixa que eu precisava para dar vazão à minha busca, seja ela qual for. Mais ainda, é a partir da validação destas instituições científicas que posso continuar o meu projeto pessoal de viver aprendendo.

Engraçado — a arguição onde a banca faz perguntas e tem em mãos o meu Lattes. Foi tudo muito tranquilo, até onde falar com doutores que estão te avaliando pode ser tranquilo, mas em dado momento alguém me pergunta: “é erro de impressão, de digitação, ou você realmente ficou nove anos no curso de filosofia?”. Discretamente eu joguei uma charme e disse: “foi uma época complicada”.

Viver sem arrependimentos para morrer sem arrependimentos. É uma filosofia bastante simples, esta. Obviamente, parte do princípio que a morte é em si fora de nosso alcance. Uma vez morto, acabou, de nada mais adianta querer. A vida interessa, e somente ela. Baseado na mesma premissa, uma vida sem violência levaria a uma morte não violenta. Infelizmente não tenho certeza disso, se os homens e a sociedade perseguem e resolvem tudo de maneira violenta. Jesus que o diga.

Praça alencastro em cuiabá

E é ilusão achar que se está só e isolado. Mas também é ilusão achar que só porque torce pro mesmo time e crê no mesmo Deus, se esta unido. Uma vez eu estava trabalhando em um posto de gasolina, eu via pessoas indo e vindo com seus carros, caminhões e motos o tempo todo. Como naquele filme, Donnie Darko, eu imaginava o que os puxava para cima e para baixo, qual era o nexo causal, o que era assim tão importante para por o mundo em movimento, para sair de casa e se arriscar nas ruas.

O mundo está em construção permanente. Um bater de asas de borboleta no Japão pode causar uma enchente no Belvedere. Quando alguém sai de casa a realidade se configura para aquele dia, aquele trajeto e aqueles encontros. Mas não de uma maneira causal, como se imagina. Quando eu abastecia os carros no posto do Renato eu via o espírito se movendo no asfalto — as pessoas fazem o que precisam fazer, e se alegram com isso por mais difícil que seja. A filosofia mais prática se encontra aí: você faz o que precisa fazer, e aceita o que precisa aceitar.

Em um ano de perdas difíceis e inaceitáveis, buscar o conhecimento é uma tentativa desesperada de se aproximar de algo mais duradouro e menos perecível. Uma coisa que não se perde quando se perde tudo, uma coisa que tem um valor quando nenhum valor perdura. Ainda assim, nada disso durará mais do que uma vida. Aprender isso é aprender também a viver.

Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das ideias.

A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.

Manifesto antropófago e outros textos (Grandes Ideias) (de Andrade, Oswald)

Após duas década no novo milênio podemos começar a apreciar este Admirável Mundo Novo. Já fizemos isso antes. Somos uma espécie sonhadora como nenhuma outra. A Belle Époque, O nascimento do Modernismo no Brasil, a primeira Globalização antes da quebra da bolsa em 29 — períodos de sonho coletivo, de grande esperança e períodos de desânimo e desalento, um seguido do outro. Ainda assim, o século 20, para mim, é o fim da história e tudo que veio depois é meramente um epílogo.


Um feliz natal a todos, uma deliciosa ceia acompanhada de boas risadas com os amigos e familiares; sempre lembrando da sorte imensa que temos de ainda termos um aos outros, comida na mesa e um teto sob a cabeça. Um ano novo cheio de promessas e sonhos como só nossa raça sabe fazer, assim como a determinada vontade de atingir seus objetivos.

Talvez eu não escreva mais aqui com tanta frequência, pelo menos até encontrar um bom equilíbrio entre trabalho e faculdade, entre reflexões pessoais e pensamentos que podem ser úteis aos outros. “Equilíbrio”, aqui, é apenas uma maneira de dizer esquecimento — até atingir o esquecimento de mim mesmo e puder voltar ao estado original de “não esforço”, fazendo” sem fazer” aquilo que desejei “sem desejar”. Que seu ano seja cheio destas alegrias e muitas outras.

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