A calmaria que precede a tempestade

capa Vista da sala 37 FCA - na UFMT

Tirei férias para focar no primeiro semestre do mestrado em cultura contemporânea mas acabou que a universidade suspendeu as aulas em respeito à orientação dada pela OMS e pelo MEC. Minha vida é uma piada.

Mas, mesmo que eu ainda estivesse trabalhando, provavelmente seria designado para tele trabalho, o famigerado home office de que tanto falam. Isso também seria difícil dadas as circunstâncias que toda quarentena envolve. No fim das contas nem tem mais graça — o que está acontecendo acontece com todos.

Ou quase todos. Certamente existe aquele um por cento que não se terá nada da sua vida abalada. E não por causa de dinheiro ou posição social. Isso tem sido, e com razão, amplamente discutido. Aponto as contradições no estado das coisas, apenas. A famosa frase bíblica “chove sobre o justo e o injusto” pode estar certa em 99,9% dos casos, mas não é uma verdade absoluta.

Digo isso tudo porque quero acreditar que as pessoas lá fora, ao relento (hoje choveu e está frio para os padrões desta cidade) podem estar, supreendentemente, mais seguras do que a gente aqui do lado de dentro. Digo isso por que quero, necessito acreditar, que medidas de precaução como essas que estamos tomando como sociedade global são racionais mesmo sendo a natureza uma força incontrolável e impossível de ser apreendida em sua totalidade. Mesmo que seja apenas o princípio de um século de lutas contra o desconhecido e absolutamente caótico.

Talvez por isso seja tão importante seguir à risca os cuidados que nos indicam. Nem são tantos, e nem são terríveis. Penso naqueles que estão sozinhos e isolados com frequência, como penso nos desalojados. Não é de agora que, em sua maioria, são abandonados pela sociedade e presumo que já lhes seja corriqueiro. Mais uma vez, desejo isso, como desejo que isso passe logo. A crise, não o vírus.

Até mesmo por isso vou ficando em casa, dando o exemplo que queria ter tido. Não é por que não faço parte do grupo de risco que não posso ser uma transmissor, e isso é imperativo. Com os devidos cuidados posso até me exercitar rapidamente, como sempre faço, mas agora passo oitenta por cento do meu tempo isolado. Eu já vinha fazendo isso nos últimos anos mesmo, por que estava desempregado, e agora, de férias, só preciso relembrar como era. A meu favor tem o delivery de vinhos e de pizza, os livros que venho acumulando a minha vida toda, o novo disco do tame impala, a minha primeira (e última até agora) tarefa da minha aula de Estudos Culturais 1: ler Cultura e Imperialismo de Edward Said.

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