Da compaixão de estranhos

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O texto narra uma intensa jornada de autoconhecimento e resiliência, onde o autor enfrenta adversidades extremas, desde a perda material até desafios existenciais. Através de uma mistura de descrições vívidas de eventos e reflexões profundas sobre a vida e a natureza humana, a narrativa explora a tensão entre desespero e esperança, destacando encontros com a generosidade alheia. Apesar das dificuldades, o texto recusa o pessimismo, optando por extrair sabedoria e significado das experiências. A história, rica em referências filosóficas e literárias, evidencia a jornada do autor não apenas como um percurso físico, mas como uma exploração espiritual, deixando claro que o impacto das vivências transcende o retorno ao lar, moldando permanentemente sua vida e visão de mundo. Este relato introspectivo ressalta a singularidade e a universalidade das experiências humanas, enfatizando a conexão entre os eventos pessoais e os fenômenos globais.

Como já relatado em outro texto, em 13 de janeiro de 2018 eu tive um dia de mendigo. Nem foi um dia inteiro, porque eu fui despojado de tudo exceto as roupas do corpo às 5:30 e já por volta das 20:00 eu embarcava para Santa Cruz. Não adiantando-se nestes pormenores, me interessa dizer que aprendi algumas lições duras neste dia, mas que foram se provando úteis com o tempo.

A primeira é que as questão da violência e do perigo não se limitam a apenas o bairro ou a cidade, mas mesmo regiões e países — ainda que áreas fronteiriças sejam em geral mais perigosas. É preciso estar atento e saber não resistir ao mal. Outra lição, essa controversa e até mesmo contraditória, é a do bom samaritano — aquela que diz que o bem pode vir de onde menos se espera, até mesmo de estranhos e desconhecidos. Dito isso, quero contar a minha história dos últimos dias na Argentina e na Bolívia.

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Em SANTA CRUZ DE LA SIERRA com as roupas que me deram

Eu estive na casa de um estudante de arquitetura em Córdoba por um dia (que aluguei por um aplicativo), após vagar pela cidade e dormir na rodoviária por outros dois. Isso foi um imenso alívio pois eu precisava muito dormir em uma cama, usar internet e tomar um banho quente. Também, pude trocar uma ideia com Martin, meu anfitrião e seu amigo que vivia lá. Depois disso comecei a acertar minha volta, que seria de ônibus até Santa cruz de la Sierra na Bolívia, e depois, de ônibus para Cuiabá, no Brasil, o mesmo caminho que percorrera na vinda.

Poder-se-ia dizer que as coisas começaram a dar errado, então quando ao invés de ir direto para Santa Cruz de la Sierra eu decidi ir primeiro ver o Cerro de los Siete Colores, em Purmamarca, Jujuy. Um fenômeno geológico natural que eu já estava ansiando por ver desde que planejara a viagem para a Argentina, meses atrás.

A verdade é que eu estava distraído. Saíra do retiro com tanta vontade de fazer tudo ao mesmo tempo que chegava ser engraçado. Em dado momento eu iria sair de ônibus para uma cidade próxima e esqueceria as coisas todas no ponto de ônibus — e tive que pedir ajuda aos amigos que fizera no retiro para recolher e levar ao hostel antes que alguém notasse. Coisas simples e mundanas estavam fora do meu alcance, ao passo que subir um morro por uma hora e meia ou duas fora relativamente fácil (com uma bela xícara de café espresso antes, claro).

Apaixonado, no sentido filosófico do termo, eu queria abraçar as dificuldades, descobrir meus limites. Como o príncipe que abandona o palácio ou o herdeiro que vai viver nas ruas, eu estava ansioso para me jogar na vida. Mas, também, isso não é fácil e nunca saberei que dispositivo de segurança me prendeu. E tampouco era original.

Se eu enumerar todas as vezes em que fui de alguma forma humilhado, derrotado, ou que perdi alguma coisa que me era cara, iria precisar usar a função CONT no Excell. A vida, para mim, muito cedo, foi uma incessante sequência de amargas derrotas. Ainda assim, como que por milagre, eu sempre descobria uma razão para continuar.

Quando li os estoicos e Nietzsche pela primeira vez passei a acreditar que era deles que vinha a explicação para a vida, o universo e tudo o mais. Logo me apropriei destes conceitos, sempre evitando a sistematização. Assim foi que ao chegar ao topo do morro eu escrevi “ousa conquistar a si mesmo” (uma máxima existencialista) e “e seja feliz” (uma benção budista) e coloquei na cruz que lá ficava com as ofertas dos viajantes.

Quando parti de lá, sozinho outra vez, para a cidade grande, Córdoba, eu ainda estava no mesmo entusiasmo. Assim, eu vaguei pelas ruas com a mochila sem ser incomodado, já perdera minha barraca — a viagem desde o início sendo a perda de coisas no caminho (o celular com todos os mapas baixados antes mesmo de chegar a Santa Cruz De La Sierra). Me alimentava o suficiente e tomava banho na rodoviária, dormitando um pouco aqui e um pouco ali — sendo que dormir era proibido, como em todas as rodoviárias que eu conheço, aliás.

Isso foi divertido enquanto durou. Como eram férias não pude ver a Universidade de Cordoba em todo seu esplendor, mas ainda assim passei por lá. Andei por vários lugares e entrei em um prédio público só para conhecer. Vi um cartaz fazendo referência sobre a previdência dos sobreviventes da guerra das malvinas, com a foto de um jovem soldado e achei muito triste. Conversei também com um jornaleiro sobre o cordabaço nos anos sessenta, e tirei muitas fotos (mas muitas foram perdidas junto com a câmera). Não havia dinheiro e tinha uma tremenda vontade de comprar coisas; isso indo em direção ao desejo estoico que eu mencionei, conflito que resolvi esbanjando todo o dinheiro.

Até então, portanto, estava tudo as mil maravilhas. Andando por Córdoba, e depois por Jujuy como um viajante, olhando tudo e não sendo notado. Quando você não tem nada, você não tem nada a perder, como diz o poeta. Mas eu tinha algo a perder, logo descobriria.

Foi na ida para casa que eu inventei de sair a esmo pelas ruas de uma cidade a poucos quilômetros da fronteira com a Bolívia. Eu já não tinha dinheiro para a passagem até a fronteira, apesar das repetidas ajudas de minha mãe, da Fatima até de amigos argentinos que fizera no retiro; como eu quis ir quebrando a viagem de volta em partes isso aumentou o custo de uma maneira não prevista. Estava confiante na minha capacidade de improvisação, e achei que o motorista ia me levar para a próxima cidade (que era meu destino) se eu fingisse que estava dormindo. Me enganei. Eu tive de descer em uma cidade que não conhecia e, quase de manhã, eu fui assaltado por um cara com uma faca, ao tentar alcançar a rodovia.

De nada adiantou a menina que estava com ele pedir que não o fizesse. Ele era maior e logo me pegou pela gola me ameaçando. A coisa toda não durou mais que 2 minutos, mas foi suficiente para me deixar sem nada, exceto a roupa do corpo. Eu não senti que iria resistir em momento algum, e como uma síndrome da escada, eu me arrependi muito, muitas vezes, algum tempo depois, de não ter reagido. Mas isso foi o melhor a ser feito, pois saí fisicamente ileso.

Mas, depois de ser roubado e escorraçado pelo cara, eu saí imprecando com Deus e o Universo. Minha inocência tinha sido roubada e eu não poderia perdoar nada nem ninguém. Agora soa bobo, mas eu realmente pensava algo do tipo: “Como assim não posso sair de madrugada cheio de coisas sozinho em uma cidade desconhecida?”. Não era racional e eu tinha bebido de tarde, mas era assim que eu me sentia.

Amanhecia. Fui até a polícia montada. Não me foram úteis. Fui até a delegacia. Também não me ajudaram. Para eles não havia nada a ser feito. Ainda assim, pelas nove da manhã de sábado me deram um boletim de ocorrência; meu único documento.


Eu tinha que voltar para casa, e tinha que sair da Argentina. Era manhã e fui à rodoviária, pedir ajuda para chegar à fronteira. Já em Salvador Mazza eu fui até a polícia federal da argentina, pedir ajuda de embaixada brasileira ou coisa assim. O policial tentou me ajudar mas nada de concreto foi feito. Ele me disse que eu precisaria do documento para dar a saída do país. “Fantástico, então além de assaltado eu estou preso aqui?” pensei. Fui até uma Lan House e uma mulher deixou eu usar o computador por alguns minutos, e contatei minha mãe e a Fatima pelo Facebook; meu familiar mais próximo estava a mais de 500 km dali, em outro país. Mas aí eu me lembrei, eu conhecia alguém dali.

Quando eu vim de Santa Cruz em direção à fronteira, eu fui guiado por uma mulher que trabalha com este tipo de translado, em Yacuiba, a última cidade da Bolívia. Quando a conheci fiquei impressionado com a desenvoltura dela com os estrangeiros e a maneira como ela me guiou até a fila e me instruiu sobre o que informar na hora de dar entrada na Argentina; em nenhum lugar do mundo essa transição é fácil, e muitas vezes precisamos lidar com funcionários arrogantes (não tive esse problema em toda a minha estadia na Argentina, no entanto, muito pelo contrário). A tensão está no ar, e é preciso estar muito calmo. E esse era o ambiente dela. Fui procurá-la no mesmo lugar que a vira pela última vez, e desta vez tive sorte.

Uma vez lá, eu fui até ela explicar minha situação — roubado e sem documentos. Ela me apontou de imediato o caminho que os trabalhadores faziam todos os dias e que não passavam pela alfândega. Isso eu havia visto no Peru também, um caminho exclusivo para os trabalhadores que precisam voltar para sua cidade no fim do dia. Não acredito que seja legal, mas tolerado. E certamente não é para turistas.

Eu segui por uma hora nesta direção indicada, sem perceber exatamente quando havia passado, ou não, a fronteira; tomo como lembrança especial e única um momento em que pedi a dois garotos o caminho e me apontaram, uma entrada pelo quintal de outro. Lá havia um pai e sua filha e era a entrada de uma cerca, por um quintal particular. O caminho bem trilhado. Logo estava na Bolívia.

Em Yacuiba comi minha primeira refeição do dia de uma goiabeira. Ainda tinha de andar por um par de horas antes de chegar até a rodoviária. O objetivo era entrar em contato com alguém em Santa Cruz e de lá pagarem-me uma passagem de ônibus. Uma vez na Bolívia isso se tornou possível.

Fui às lan houses e pedi alguns minutos para acessar minhas redes sociais e e-mail, explicava minha situação e mostrava o boletim de ocorrência da polícia da Argentina. Ninguém me negou ajuda. Mais tarde, com muita fome, eu entrei em um restaurante e ofereci ajuda para lavar pratos em troca de comida e a mulher disse que me dava um prato de comida sem pedir nada em troca, mas somente sopa, o que aceitei alegremente. A sopa boliviana é muito rica.

Sem documentos eu não poderia sacar dinheiro em bancos ou transferidoras de crédito como a western union. Andei pela cidade o dia todo, um dia sem posses ou preocupações, conheci um menininho fã do neymar em um evento aleatório no estádio da cidade, observei a vida no meio de um sábado qualquer. Às oito da noite eu embarcava para santa cruz e levo Yacuiba em um lugar especial no meu coração desde então.


Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.

Demian, Herman Hesse

Eu voltei para casa logo que me foi possível. A volta envolveu pegar um ônibus muito velho que me trouxe pela esburacada estrada boliviana até a fronteira, em San Matias. Ainda assim, foi um momento maravilhoso, e cada hora mais perto de casa, ainda que em um ônibus que parecia poder quebrar a qualquer momento, era um alívio.

Em Cáceres, fiquei andando pela cidade até de madrugada quando meu ônibus chegou. Parti para voltar à rotina da faculdade e trabalho de bolsista. Em três semanas o Vitor morreu e minha vida que estava começando a se acertar — comprando as coisas que foram roubadas, estudando, etc. virou de cabeça para baixo novamente.

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