Da Resistência

“Embora me arraste ao nível de solo, não deixo de perceber nas nuvens, por mais alto que se elevem, certas almas que se distinguem pelo heroísmo. Já é muito para mim ter o julgamento justo, ainda que não o acompanhem minhas ações, e manter ao menos assim incorruptível essa qualidade. Já é muito ter boa vontade, mesmo quando as pernas fraquejam”. Montaigne, Michel de. Ensaios. Trad. Sérgio Millet — 5 ed. — São Paulo. Nova cultural, 1991 (Os pensadores) .Capítulo XXXVII. Catão, o Jovem.

O sono da razão produz monstros. Isso foi Pascal quem disse. Acho que o mesmo se aplica para essas vagas revoltosas que incendiam o povo e depois criam uma situação insustentável. Sinto isso quando leio sobre a guerra. Não o conflito em si, mas a maneira como os povos se inflam de patriotismo, como a maioria das pessoas sai de sua vida tranquila para pegar em armas. De camponeses a soldados em um piscar de olhos. Depois, só traumas e culpa por ter sobrevivido. Isso quando não ficam desmembrados.

As Jornadas de junho de 2013, primeiro como luta pelo transporte público melhor, no sudeste, e depois no país inteiro, com outras pautas (e muitas vezes sem pautas nenhuma), foram outro exemplo deste tipo de incêndio espontâneo que toma os homens de vez em quando. Não que sejamos um povo calmo e dócil. O Tenentismo e Canudos, assim como a Coluna Prestes, entre tantos outros movimentos revoltosos, estão aí para provar justamente o contrário. O meu ponto é: existe essa coisa coletiva para um povo pagar por suas ações? Existe karma coletivo? Se for o caso, certamente eu não devo nada. Ainda assim, me sinto tão culpado quanto se houvesse tido parte nisso tudo.

Como posso contribuir para um mundo melhor quando meu país se afasta do mundo?

Sim, estou falando destes descaminhos que a democracia brasileira nos trouxe e que me leva à descrença e ao desânimo. Estou falando do acinte de ter como articulador um pseudo-intelectual como Olavo de Carvalho, mas, mais ainda, ter como presidente um militar entusiasta de tortura e de armamentos (e que já vai pelo péssimo caminho dos Estados Unidos)? Não um político de direita, mas um de extrema-direita? Não um conservador, mas alguém que disse preferir o filho morto do que o filho homossexual? Não um (para usar a distinção do Cortella) revolucionário, mas um revoltado? Enfim, um presidente que não se importa com mudanças climáticas, migração e direito dos povos? Não um (para usar a famosa distinção de Sydney Harris) patriota, orgulhoso de seu país pelo que ele faz, mas um nacionalista, orgulhoso do seu país não importa o que ele faça e como ele faça?

É como se eu houvesse sido chamado para uma festa pobre, para usar os versos do Cazuza. Para um jogo que ninguém diz quais são as regras, e que eles estão jogando a bem mais tempo do que eu. Para piorar usam de cortina de fumaça, de desinformação e chantagem barata para me fazer sentir como se eu fosse o culpado. “O país precisa de você”. “Seja um bom brasileiro”. “Torça para dar certo”. Oras, como posso torcer por um governo completamente alheio às pautas que me são caras? Que inclusive age precisamente contra elas? Que governa para uma minoria? Que se vende para o mercado? Para a vontade das elites?

Elite essa que se dá o desplante de vaiar o Evo Morales. Mesma elite que dança no corredor do hospital a despeito de todas as explicações que tem para dar ao ministério público. Que é dona de grandes empresas desde antes do Brasil ser república mas que diz que foi o PT que quebrou o Brasil. Que inculca nas massas que bolsa em alta é boa coisa… uma elite do atraso, como disse Jessé Souza.

Que chance temos contra eles, que tudo sabem, tudo podem? Mas eu sei de uma coisa que eles não sabem, e pretendo fazer uso deste recurso que ele sequer imaginam. Chama-se compaixão.

A nobreza e o heroísmo consistem em sermos nós mesmos para além de qualquer tentativa externa de nos fazerem sermos outros; não é questão de consumir para manter o mercado aquecido, ou de acreditar que as coisas vão se ajeitar de um jeito ou de outro… Não vão. Não é questão de “eliminar os vermelhos” e varrer o comunismo do nosso país. Ele nunca houve; e se houve nunca foi longe. Entenda essa fake news, de uma vez por todas: fizeram uma lavagem cerebral no Bolsonaro e nessa geração do Bolsonaro. Os militares precisavam de um inimigo, como toda ditadura… assim como hoje o inimigo é a “ideologia comunista”, ou o “marxismo cultural”, outra invencionice… O inimigo, se é este o caso, é qualquer ideologia que não seja reconhecida como tal. Que se infiltra na sua mente e o torna um tipo de robô. Que se autoproclama como verdade absoluta e inquebrável.

O Brasil, assim como outros países, provavelmente vai passar por uma mudança de valores que ainda não havia acontecido até então; o relativismo e a desinformação empregada na campanha e nos tons do discurso do presidente (incluindo o da posse) já deixam isso bastante claro. O próximo passo deste plano modernizante e capitalista neoliberal para o país deve ser aquele que já conhecemos muito bem, de tanta autopropagando que vemos por aí: “basta você querer”, “basta você empreender”… A sociedade do cansaço veio para ficar.

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