De todas as coisas que eu poderia sentir falta a maior delas foi andar de bicicleta

A segunda foi ver meus amigos

O que significava dizer que ele estava pensando? Vasculhando remotos depósitos de memórias? Circuitos lógicos se abrindo e fechando? Precedentes recuperados, comparados e depois rejeitados ou guardados? Sem autoconsciência, não estaria pensando de modo algum, apenas processando informações. Mas Adão havia me dito que estava apaixonado. Tinha haikus que o comprovavam. O amor não era possível na ausência de um eu, tampouco o ato de pensar. Faltava-me ainda resolver a questão básica. Talvez ela estivesse fora de alcance. Ninguém saberia o que é que havíamos criado. Ian McEwan —

Máquinas como eu. Ed. Cia das Letras, 2019

Andar de bicicleta para mim era o que costumava ser andar a cavalo para um Huno. Mais do que um meio de transporte, era um modo de vida. E ainda que não esteja completamente impedido de subir nela e dar umas voltas — e ela é mais segura que o transporte público para evitar contaminações, contanto que se vista máscara — eu não saio porque aquela que era a maior razão incentivadora — escolher a bicicleta para fazer tudo, seja ir à aula, seja ir ao trabalho ou ao mercado — se tornou sua maior fraqueza: não há mais aula, o trabalho é de casa e mercado só em último caso.

O distanciamento ajuda, no entanto, a ver as coisas em perspectiva. Andar de bicicleta nos últimos dez anos, em Cuiabá ou qualquer outro lugar, se provou um tipo de feito heroico, senão uma manifestação política, quase uma insurgência. Mas, como era de se esperar, reduzir tudo à política pode surtir um efeito contrário ao meu intento em demonstrar meu amor por esta atividade. Talvez se eu recomeçar eu consiga.

Andar de bicicleta diminui distâncias e tempo hábil, é verdade. Mas não dá para terminar um livro andando de bicicleta (ao passo que de ônibus isso sempre acontece). Mesmo podcasts podem ser bem pouco aproveitados pois a atenção no trânsito tem que ser precisa. Andar de bicicleta é um pouco solitário também. É só você, sua bicicleta e o objetivo. Seu colega ou sua colega podem estar pedalando pelo mesmo objetivo, mas no fim você é quem tem que pedalar.

Esta pandemia e a consequente tentativa de “achatar a curva” (quer dizer, ficar em casa para tornar o pico de casos de infecção menor e portanto menos agressivo ao sistema de saúde) está ensinando muita coisa a todo mundo, e uma delas é saber o que é útil e o que não é de se ter em casa. Uma barra para exercícios presa no vão da porta ou uma bicicleta extra poderiam ser úteis nesse momento; um plano de internet que não me deixasse na mão também. Mas mais útil é saber que todos precisamos fazer sacrifícios neste momento e se este é o meu sacrifício, que seja.

Outras lições que surgem naturalmente nestes dias: não é falta de tempo o verdadeiro motivo pelo qual não fazemos aquele ou outro projeto tão sonhado. Muitos fatores podem ser acusados de nos impedir de sermos mais produtivos, mas com certeza a própria ideologia de consumo, assim como a necessidade de novidades e gratificação instantânea (que é o cerne desta ideologia e ao qual a sociedade se moldou imediatamente) estão entre eles. Saber que temos parentes em perigo com certeza é um deles, também.

Sei que mesmo eu, com minha capacidade de normalizar qualquer coisa (já dito aqui em outra ocasião) sou incapaz de normalizar isso. E, não fosse minha briga constante com os livros não lidos, não estaria fazendo nem isso, provavelmente. Mas não sou uma máquina, por mais que às vezes deseje isso.

SOMA gameplay - Papo entre Walker, PX e Saulo enquanto esse último jogava SOMA pela primeira vez.

Acabei esta semana um livro que estava enrolando para acabar desde fevereiro. Máquinas como Eu do Ian McEwan, meu primeiro livro dele, fala de um futuro alternativo onde Turing não se suicida, onde as pesquisas de robótica dão um salto e onde os primeiros robôs em tudo semelhantes ao humanos (ainda que finjam comer mas precisem de um cabo de energia plugado ao umbigo, uma vez por dia para realmente se alimentar) começam a ser comercializados. É um livro com muita reflexão, que bebe no melhor da tragédia shakespereana e que tem um cenário político balanceado e crível, por mais fictício que seja. O que me atraiu mais foram, no entanto, as relações construídas, o triângulo amoroso e as personalidades dos personagens principais. Descobri, ao fim e ao cabo, que eu torcia mesmo era pelas máquinas.

Pessoas são complicadas, e pessoas complicadas também são (quase sempre) mentirosas. Nem preciso fazer um mestrado em literatura para saber disso, mas o McEwan deixa isso bem claro em seu romance: criamos um mundo onde não há espaço para o meramente correto, o meramente puro ou o meramente simples. Mais do que isso, arrisco a dizer, não criamos nada, como um acidente, apenas acontecemos, e mesmo os mais brilhantes dentre nós não passam de uns macacos espertinhos, para usar aquela brilhante metáfora do DeGrasse Tysson onde ele compara nossa inteligência com os macacos e depois extrapola a analogia: se aliens (ou neste caso Máquinas) fossem mais inteligentes do que nós, somente na mesma medida que somos dos macacos, nossa humildade ficaria definitivamente escancarada.

Essa mudança, no entanto, parece fácil. Eu me vejo em um futuro não muito distante, andando menos de bicicleta, a minha “máquina” pessoal. Talvez adotando um modelo elétrico, ou, provando que o mundo dá voltas, usando um carro com um suporte na traseira, levando a bicicleta para passear ao invés de ser levado por ela; nada disso é impossível e nem precisa ser temido. Meu maior exemplo de inteligência individual nestes últimos anos tem sido justamente evitar acidentes sérios de bicicleta, diminuir minha pegada de carbono, se divertir e se exercitar ao mesmo tempo que recortava a cidade segundo os meus desejos, criando desire lines por todo o território: era inspirador e era especial, mas um dia iria acabar.

Mês passado eu andei, segundo o google maps, mais de 360 km, ou 25 horas, pela cidade, só de bike. Em janeiro foram 389 km. Eu trabalhava e usava ela na minha pesquisa, então, e me quarentenei no meio do mês. Este mês eu não saí de casa mais que cinco vezes. E duvido que atinja uma cifra de três dígitos. Eu ganhei um carro e simplesmente deixei para meus pais, mas talvez seja hora de repensar; aquilo que era inteligente hoje talvez não seja mais.

Agradecimentos ao Victor Gabriel M. Ramos pela revisão

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