Geografia de Fluxos & Redes

capa Jhon, Eduzera e Cristian, colegas de curso

Geografia de Fluxos & Redes: duas abordagens e um relato de experiência

Resumo: Este texto apresenta duas abordagens para a compreensão da geografia de fluxos e redes. Primeiro, discute a circulação de informações no mundo contemporâneo, abordando temas como fake news e o impacto da tecnologia na sociedade. Em seguida, analisa um livro didático de introdução à geografia, explorando como a globalização é abordada na obra. Além disso, relata uma visita ao quilombo de Mata Cavalo, em Mato Grosso, apresentando os conflitos envolvendo comunidades quilombolas e a luta pela posse da terra. O texto também discute a importância do território e da cultura na formação das identidades e na promoção do desenvolvimento econômico.

INTRODUÇÃO

Apresentam-se neste texto duas abordagens para compreensão da geografia de fluxos e redes. Nele iremos abordar tanto a globalização a partir do ponto de vista de um livro didático como iremos também intercalar uma discussão sobre a circulação de informação, território e a criação da cultura usando de conceitos estabelecidos por Milton Santos apresentados em um trabalho da , Evelyn Andrea Arruda, TERRITÓRIO, INFORMAÇÃO E CULTURA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES. Somam-se a estas discussões conceituais a discussão prática dos conflitos no campo em específico os conflitos envolvendo os quilombolas no quilombo de mata cavalos localizado em N.S. do Livramento, MT. OBJETIVOS

Nosso objetivo está dividido em duas partes complementares: na primeira parte será analisar um texto sobre a circulação das informações no mundo contemporâneo e no Brasil. A questão é que no contexto da globalização há um discurso de conectividade, mas será mesmo que há tanta conexão? Na segunda parte Analisaremos um livro didático de introdução à geografia, e iremos dar continuidade ao processo analítico de observação sobre como a Globalização (como um processo territorial) é desenvolvida pelo livro.

METODOLOGIA

Pesquisa bibliográfica. Resumos, textos, artigos da internet e podcasts jornalísticos.

PRIMEIRA PARTE: INFORMAÇÃO, TERRITÓRIO E CULTURA. MAS NÃO NECESSARIAMENTE NESTA ORDEM

O presente texto apresentará ideias em torno do tema da informação, cultura e território e como a ciência geográfica lida com eles. Para isso usaremos de fontes como jornais e livros, mas também podcasts de política. Partimos do princípio de que o mundo como está não é dado nem é uma encenação. O mundo, ainda que seja impossível de se definir, é um dado no espaço. O estudo do espaço e das relações que ele contém é a essência da ciência geográfica. Ciência e cultura não nasceram separados, mas hoje, como muitas coisas, são assuntos individuais. Alguns autores estudam tanto as partes como o todo. É deles e do texto da Evelyn Pereira da USP que partiremos.

Conceituações básicas: Território é a relação de significados com um lugar determinado no espaço. Cultura é se relacionar e dar significado àquilo que existe. Informação é a medida mínima de conhecimento. Conhecimento é aptidão da vida, mas que leva muitas vidas antes de um indivíduo poder adquiri-lo completamente. A humanidade já está a perder o controle sobre o conhecimentos e sobre a vida por causa dos avanços técnicos-científicos.

Um exemplo. Estávamos em meio a uma campanha eleitoral extremamente polarizada. Com isso queremos dizer que ou se estava de um lado ou de outro do muro. Tudo estava definido em entre “nós” e “eles”. Tal polarização é parte da história recente do país e aponta em direção a um aspecto unificado (luta contra a corrupção). Esse aspecto foi utilizado por uma das partes dos conflitos para criar uma frente confiável, ainda que através de um discurso ainda mais divisório. Já esta sendo chamada eleição da “Fake News” e basicamente usa das fragilidades do sistema informacional para aumentar a popularidade de um lado ao mesmo tempo que solapa a credibilidade do outro.

Estima-se que cerca de doze milhões de pessoas divulguem notícias falsas na rede todos os dias com fins políticos. Estas pessoas, que não tem nenhum compromisso com a veracidade ou checabilidade dos fatos, usam aplicativos de mensagens, principalmente whatsapp, que é criptografado, para divulgar mentiras impunemente. De fato, existem casos na Índia onde pessoas foram mortas por causa de Fake News que atiçaram as multidões. No Brasil o maior dano é à democracia, que corre o risco de eleger um político de extrema direita por medo do “espantalho do comunismo” que o oponente deste representaria.

Muitas das referências em Fake News nesta eleição está apoiada em um estudo recente da USP, que pesquisou e monitorou mais de 500 páginas de política do Facebook. A pesquisa buscou ir a fundo do discurso destas páginas atrás de alguma substância. Não acharam. Segundo o podcast Mamilos de 29 de setembro, basicamente o que está sendo feito é um inchamento de alguns discursos nacionalistas — porém sem a ideia de defesa frente a ameaças estrangeiras — e a desconstrução do comunismo, sem nunca explicar o que seria esse comunismo.

Como exemplo estes acontecimentos, os quais ainda vivenciamos intensamente, torna-se muito interessante de se estudar sob o viés da análise miltoniana da globalização a questão da informação: informação é mera imaterialidade? Se sim, como ela pode interferir na realidade concreta? Existem divergências a este respeito, mas basicamente:

Não há nada de ‘imaterial’ na informação, na medida em que ela emana de fontes materiais e de fenômenos físico-químicos da natureza, sendo processada também por algum agente corpóreo”. O autor a localiza “em uma espécie de sítio intermediário entre a origem dos fenômenos sinalizadores e os agentes que os captam e os processam. Não será nem atributo do objeto, nem do agente, mas será sempre uma relação entre ambos. PEREIRA (apud DANTAS, Marcos, 2003).

Vivemos na era em que usa-se satélites para enviar mensagens instantâneas ao redor do globo. Assim sendo, temos transmissão ao vivo de qualquer parte do mundo ao alcance das mãos. Mesmo que se alegue que o homem nunca esteve tão sozinho e que novas ansiedades como o medo de ficar de fora dos acontecimentos (FOMO na sigla inglês) estejam cada vez mais comuns, aparentemente a tecnologia e o desenvolvimento de suas diversa formas de mudar a realidade não parece parar tão cedo. Bastam ver as notícias em torno de temas como “Internet das coisas” ou “aprendizado das máquinas”. Alguns autores afirmam que um acontecimento único como o big bang, a singularidade, pode acontecer em breve onde as máquinas passarão a não mais precisar do homem para se desenvolver

Com uma difusão desigual pelo território, esses objetos técnicos permitiram a circulação seletiva das informações cada vez maiores em menor tempo, chegando, no momento atual, à potencial instantaneidade entre os momentos de transmissão e de recepção destas informações, e a uma divisão territorial complexa dos agentes que participam deste processo. A humanidade muito em breve se tornaria, portanto, refém de sua própria criação.

Ainda que estejamos distantes disso, seria o caso de usar a ciência geográfica como catalisador dos diversos processos econômicos, sociais e políticos que estão acontecendo neste momento. Quando se pensa no bordão “conhecimento é poder” pode-se atualizar para “informação é poder”? Se este for o caso é importante saber onde estão indo os dados que damos à empresas como o Facebook e Google todos os dias, ou pelo menos, se perguntar, por que elas estão interessadas em uma coisa tão banal?

Primeiramente, sabe-se que é feito pesquisa e marketing específico por causa de nossas buscas e interesses. Assim, a bicicleta que você comprou em maio, ainda será anunciada a preços cada vez mais chamativos nos espaços de anúncio dos sites que você visitar ainda em outubro… mas não é só isso. Com o tempo esse tipo de conhecimento, os dados corpóreos e mentais das pessoas, poderão ser essenciais à empresas que querem manter uma fatia do mercado, afinal o cliente sempre tem razão, principalmente quando sabemos qual é a razão de cada um deles usando cálculos matemáticos e estatísticos com dados acumulados por dezenas de anos de bilhões de pessoas.

Para analisar esta questão, Milton Santos (1994; 1996) idealizou o par conceitual tecnosfera — psicosfera; enquanto a tecnosfera seria dada pelo conjunto de objetos técnicos implantados nos lugares (e que no período da globalização, funcionam em integração direta com os objetos técnicos de outros lugares), a psicosfera seria “o reino das idéias, crenças, paixões e lugar da produção de um sentido […] fornecendo regras à racionalidade ou estimulando o imaginário” PEREIRA (apud SANTOS, 1996, p.204).

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A questão do território está implícita nesta discussão: hoje o maior cliente do Mato Grosso é a China, e de São Paulo, os Estados Unidos. No mercado internacional, no entanto, nós somos dependentes dos dólares americanos que os chineses nos dão; os BRIC’s, como somos chamados, temos o árduo trabalho de se desenvolver ao mesmo tempo que procuramos não desagradar os grandões da economia. Isso gera uma tensão interna onde as riquezas naturais são expropriadas em um discurso de desenvolvimento que só enxerga a curto prazo. Por outro lado falta estrutura e educação para competir com a mão de obra de primeiro mundo. A cultura local também sofre e tem poucas chances contra a cultura de massa que os países desenvolvidos usam para se manter em voga.

Uma solução é a criação de uma sociedade de livre acesso à informação.

A “sociedade da cultura” sugerida por Gorz (…). Danilo Miranda (2008) fala na união entre a cultura científica e a cultura humanista, reforçando a visão integral da experiência humana em toda a sua diversidade. Milton Santos (2000, p.143–5), por sua vez, vê a possibilidade de insurgência de uma cultura popular no lugar da cultura de massas, gerada no cotidiano. Como afirma o autor, “gente junta cria cultura e, paralelamente, cria uma economia territorializada, uma cultura territorializada, um discurso territorializado, uma política territorializada” (p.144). PEREIRA (apud Vários autores)

Nisto que a intersecção informação, cultura e território surge, segundo a autora, pois a crise do capitalismo é antes de tudo uma crise de valor e significado, pois o que não pode ser medido só pode ser especulado, a incerteza ruindo as fundações do capital; mas não só isso. Uma sociedade que não conheça e não produza sua própria cultura é uma sociedade que perde seu valor de troca, pois nisso o capitalismo persiste: os territórios estão cada vez mais deslizantes, transitórios e não há mais uma demarcação confiável. RESULTADOS PRELIMINARES

O mote de uma das maiores manifestações frente ao Fórum econômico que ocorre em Davos com as maiores potências do mundo tem o slogan de “um outro mundo é possível”. Não apenas um slogan, descobre-se portanto, mas uma constatação: as falhas do sistema implicam que é preciso sonhar, juntos, uma sociedade mais igualitária e livre; o paradoxo do conhecimento — que saber uma coisa com antecedência torna esse próprio saber obsoleto — não fere esse mandamento, senão, o fortalece. Sabemos que pior não vai ficar se mantermos o rumo certo. As pessoas estão cansadas de ouvir o que fazer ou o que comprar. As pessoas estão prontas para a mudança de paradigma. Sociedade humanas em um mundo humano. SEGUNDA PARTE: SOBRE GLOBALIZAÇÃO, UMA ANÁLISE

O seguinte texto trata-se de uma análise do parágrafo de introdução ao pensamento de Milton Santos. Ele se encontra em um livro didático chamado “Introdução à Ciência Geográfica”, lançado em 2011 pela editora da universidade de rio grande do norte, EDUFNR. Os autores fizeram um compilado breve das principais ideias da geografia e da história da geografia no Brasil. Dada as limitações deste trabalho, julgou-se por bem trabalhar com este livro cujo público alvo são estudantes do ensino à distância que acabaram de começar. Dada a limitação do autor que aqui escreve, julgou-se usar a unidade mínima do texto, o parágrafo sobre globalização e analisar a partir daí. Segue o parágrafo:

A globalização, segundo concepção de Milton, poderia ser entendida como o período histórico no qual a ciência, a técnica e a informação comandam a produção e o uso de objetos, ao mesmo tempo em que impregna as ações e determinam as normas. Como evidências dessas transformações atuais, temos o progresso das telecomunicações e dos transportes, a agricultura moderna desenvolvida em áreas antes periféricas, as novas áreas industriais, o papel das finanças, a informação que se irradia no território, os novos consumos (incluindo a educação, a saúde, as viagens, a política), as regulações públicas e privadas e tantos outros trações definidoras da época atual. E uma das principais manifestações, dessa nossa época é, sem dúvida a descoberta de novas velocidades, de uma aceleração antes nunca vista, o que concede às coisas e às pessoas grande fluidez. DANTAS, ALDO. HORTÊNCIO, TÁSIA. P.204. EDUFRN, 2011

Para entender esse parágrafo é preciso compreender que para Milton Santos vivemos em uma época de grande avanço tecnológico e científico, que ele chamou de “Tecnosfera” e isso implica que não se pode entender o que está acontecendo sem entender o que aconteceu com o mundo após a revolução científica; por outro lado ele alega que não apenas a técnica e a ciência moldou a sociedade: a sociedade e a cultura moldaram a técnica. A essa nuance ele chama “Psicosfera”, ou o outro lado da moeda do avanço da civilização.

A globalização, (…) poderia ser entendida como o período histórico no qual a ciência, a técnica e a informação comandam a produção e o uso de objetos, ao mesmo tempo em que impregna as ações e determinam as normas. DANTAS, ALDO. HORTÊNCIO, TÁSIA. P.204. EDUFRN, 2011

Para Milton Santos, os grandes saltos tecnológicos desta era geraram consequências e efeitos colaterais que são tão notáveis e importantes quanto a tecnologia. Pode-se dizer que é o mesmo binômio que as ciências biológicas chamam de “estrutura/forma”. Com isso diagnostica-se que a máquina de fato tem um fantasma, e esse fantasma é a deliberada tentativa humana de se superar cada vez mais ainda que a custos cada vez maiores. Nas ciências “duras” é comum apontar esta dualidade complementar (em termos epistemológicos) de estrutura ou forma (CAPRA. Livraria da Travessa, 1996); na geografia crítica Milton usa o binômio Tecnosfera/Psicosfera.

Como evidências dessas transformações atuais, temos o progresso das telecomunicações e dos transportes, a agricultura moderna desenvolvida em áreas antes periféricas, as novas áreas industriais, o papel das finanças, a informação que se irradia no território, os novos consumos (…), as regulações públicas e privadas e tantos outros trações definidoras da época atual. DANTAS, ALDO. HORTÊNCIO, TÁSIA. P.204. EDUFRN, 2011

Por Tecnosfera/Psicosfera entendemos os estudos científicos, mas também o mundo que ele criou e se autogera; é o mundo dos enormes complexos industriais e, exemplo mais contemporâneo, núcleos tecnológicos como o Vale do Silício na Califórnia. É a fábrica e centro de pesquisa da Tesla e os centros de inovação na China. É a “campus party” e os “Hackaton” promovidas por empresas de tecnologia como a Google. É também a internet com suas bolhas sociais onde uma mensagem pública do presidente Trump ou do Elon Musk pode gerar ondas em vários continentes e milhares de dólares virtuais surgindo ou desaparecendo dependendo da interpretação destas mensagens curtas compartilhadas aos milhares nas redes sociais.

A globalização, assim como a economia criativa e o protecionismo, é um desenvolvimento benéfico do capitalismo, ainda que com ressalvas. Este se caracteriza por ser um desenvolvimento aparentemente natural, ainda que saibamos hoje que ele não é irreversível. Tal como ela é às vezes, é um progresso em relação ao consumo e ao bem estar da maioria dos povos. É já senso comum ter uma calça e saber que ela é fabricada em Bangladesh; mas se todos sabemos que esses bens de consumo que são tão úteis — ninguém ousa negar isso — por outro lado poucos sabem que temos uma dívida de consciência com os povos que foram explorados para fabricar estes bens. Foi Milton Santos quem apontou as contradições do sistema e desenvolveu um estudo por outra globalização. Mais humana e construtiva, ela não iria se hierarquizar em primeiro, segundo e terceiro mundo, mas procuraria criar condições de crescimento igualitário.

E uma das principais manifestações, dessa nossa época é, sem dúvida a descoberta de novas velocidades, de uma aceleração antes nunca vista, o que concede às coisas e às pessoas grande fluidez. DANTAS, ALDO. HORTÊNCIO, TÁSIA. P.204. EDUFRN, 2011

Uma das principais causas da desigualdade e consequência do crescimento desenfreado, é neoliberalismo. Tal como é conhecido, seria a escola de liberalismo econômico desenvolvida no pós guerra do século XX. Basicamente ´o estado agindo de maneira o mais restrita possível e as empresas livres para competição e a liberdade para consumir. Junto com o FMI (fundo monetário internacional) foram essenciais para resgatar as economias de países destruídos pela guerra, mas que, talvez pela eficiência com que gira os mercados e a economia, foi muito abusado e criou situações insustentáveis do ponto de vista humano e econômico.

Alguns grupos monopolizam cada vez mais os frutos da globalização, enquanto bilhões são deixados para trás. Hoje, o 1% mais rico é dono de metade da riqueza do mundo. Ainda mais alarmante, as cem pessoas mais ricas possuem juntas mais do que as 4 bilhões mais pobres. HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século 21. Companhia das Letras, 2018

Esse desenvolvimento do liberalismo econômico, tal como se transformou, é um grande moedor de carne de países de pouca estrutura e com mão de obra barata que enriquece poucos ao custo de milhões de pessoas. Ele é a causa direta de situações onde temos países inteiros quebrando, golpes parlamentares de tomada de poder transvestidos de impeachment e muito mais. Ele é o gosto amargo da globalização e o motivo de manifestações pedindo pelo fim da globalização e do FMI pelo mundo afora. BREVE RELATO DE EXPERIÊNCIA: VISITA AO QUILOMBO DE MATA CAVALO

No dia 4 de setembro de 2018, alunos do quinto semestre do bacharelado em Geografia fizeram trabalho de campo na Comunidade Quilombola de Mata Cavalo. Esta comunidade está situada no município de Nossa Senhora do Livramento/MT. A visita em campo desenvolveu-se através de entrevistas aos moradores dessa região — muito importantes para entender as dinâmicas de formação deste território, principalmente os conflitos inerentes da posse de terra por minorias étnicas no Brasil.

O Quilombo de Mata Cavalo foi formado através da doação de uma sesmaria em 1883 por Ana da Silva Tavares aos seus ex-escravos, porém com o passar dos anos muitas vezes houverem perseguições e expulsões do descendentes da terra, culminando com a desapropriação e grilagem desta área por outros fazendeiros.

Em 15 de maio, a “Portaria nº 736, que reconhece 418 famílias do território quilombola Mata Cavalo, no município de Nossa Senhora do Livramento, em Mato Grosso, como público beneficiário do Programa Nacional de Reforma Agrária” . “(…) A portaria de reconhecimento do território, em 2007, e o decreto presidencial, em 2009, reconheceram o território de Mata Cavalo como de interesse social, possibilitando ao Incra iniciar a desapropriação dos imóveis rurais que integram essas terras. (…) o Incra pode destinar a terra para o uso coletivo das 418 famílias remanescentes de quilombo que vivem no local”. A área da reserva é de cerca de 14.700 hectares (quase 4372 UFMT inteiras).

jhon Jhon faz uma pergunta

O território Quilombola, pudemos observar, é, entre outras coisas, fruto da identidade dos sujeitos para com sua terra, em outras palavras, o território. A relação do povo Quilombola com suas terras é única. Mas suas convivência harmoniosa é constantemente ameaçada por agentes externos, os conflitos pela posse da terra e pela falta de fiscalização das autoridades competentes.

Como já ficou explícito na disciplina Geografia Agrária que tivemos a sorte de ter ministrada pela mesma professora que agora ensina Geografia Agrária do Brasil, a Questão Agrária no Brasil nunca foi uma questão fácil de responder. Talvez poucos no Brasil inteiro estejam aptos a compreendê-la em sua forma completa, e por isso optam-se muitas vezes pelo recorte: para clarificar alguma questão subjacente a determinadas perspectivas.

É o caso da questão dos conflitos no campo, e, especialmente, da disputa de território com populações indígenas e/ou quilombolas por parte de garimpeiros, latifundiários e grileiros. Segundo dados do CIMI (conselho indigenista missionário) de 2014, só no Mato Grosso ocorreram cerca de 12 ocorrências de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio”. Segundo esse mesmo documento:

Os tipos de danos e/ou ataques sobre os territórios indígenas que mais ocorreram em 2014 foram o arrendamento de terras para terceiros; caça ilegal; construções irregulares de casas; contaminação da água; destruição de casas de aldeias; destruição de pontes; garimpagem; incêndios criminosos; exploração madeireira; e pesca predatória, dentre outros. Sobressaíram-se ações de invasores voltadas para a exploração ilegal de madeira nos estados do Acre, Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. CIMI, RELATÓRIO DE VIOLÊNCIA CONTRA OS POVOS INDÍGENAS, p. 62. 2014

Com os quilombolas não é diferente, e apesar da mudança de paradigma ocorrido já há mais de 50 anos no pós guerra (ARRUTI, 1999. P. 02), muita gente ainda vê, quando moderado, essa população como tutelados do estado (e quando não moderado, com considerações muito piores e perigosas, como o do candidato a presidente que os comparou a bovinos sem vontade). Como se pôde perceber na aula de campo, as raízes deste preconceito são bem mais profundas e com consequências mais pesadas. Através da história é (ARRUTI, 1999. P. 01): o desmantelamento intelectual da soberania cultural destes povos oprimidos, é a desfiguração do valor humano e individual através do uso de técnicas pseudo-científicas calcadas em evolucionismo social, à época, com o fim de criar um exército de trabalhadores sem personalidade, e hoje, com fins de tirar a voz e importância destes coletivos.

Pois, como coletivos com um território, eles são, também, a resistência histórica e cultural mais legítima contra os mega-projetos tanto na época da ditadura militar que ficou trinta anos no poder, quanto agora, o mega-projeto agrobusiness, apoiado pela mídia de massa, o projeto de agricultura extensiva e seus interesses no mercado de commodities internacional.

Desde então e ainda hoje os mesmo índios e quilombolas explorados, estiveram lutando pelas fronteiras e demarcações que os poderes instaurados insistem em ignorar, quase que completamente sozinhos. Soube-se de alguns cujos filhos se aventuram a ir à faculdade estudar direito ou agronomia, sempre voltando, agora de posses da instrumentalidade da “civilização”, para defender e ajudar a comunidade de que é oriundo.

Esse é o relatório de alguns conflitos observados em campo, muitas vezes sem a violência explícita mas que não menos assustadora. O cotidiano continua, à revelia dos interesses dos homens, mas o espírito guerreiro destas pessoas não é menor. De fato, transparece na tranquilidade da vida no campo, no falar e no calar, o interesse de manter unido o povo arado o campo e as crianças dançando.

apresentacao A escola ofereceu uma pequena apresentação para os visitantes

Procuramos entender por que ainda insistimos em fingir que não há nada de errado quando populações indígenas inteiras são remanejadas para locais estranhos aos seus com povos que antes eram inimigos; quando quilombolas são expulsos de suas terras em uma diáspora que poderia ter sido evitada pelo mesmo exército.

Território é a união do significado, cultural e original de um determinado povo com o lugar, espaço delimitado materialmente, desde que apoiado por algum indivíduo ou conjunto de indivíduos. A geografia, a disciplina que analisa o espaço por excelência e que deve também criar a instrumentalidade necessária para intervir no mundo sempre que a justiça precise ser feita, usa muito destes conceitos: lugar, povo e território.

Neste sentido é possível afirmar que o território, de maneira geral é um instrumento poderoso na criação do mundo como o vemos. Pode, portanto, ser um meio de transformação social e político. Neste sentido, surge a questão de quem está de posse desta instrumentalidade. Como diz Lacoste:

Pois, a geografia serve, em princípio, para fazer a guerra. (…) Colocar como ponto de partida que a geografia serve, primeiro, para fazer a guerra não implica afirmar que ela só serve para conduzir operações militares; ela serve também para organizar territórios, são somente como previsão das batalhas que é preciso mover contra este ou aquele adversário, mas também para melhor controlar os homens sobre os quais o aparelho de Estado exerce sua autoridade. A geografia é, de início, um saber estratégico estreitamente ligado a um conjunto de práticas políticas e militares e são tais práticas que exigem o conjunto articulado de informações extremamente variadas, heteróclitas à primeira vista, das quais não se pode compreender a razão de ser e a importância, se não se enquadra no bem fundamentado das abordagens do Saber pelo Saber. (…) Trata-se de fato de uma ciência? Pouco importa, em última análise: a questão não é essencial, desde que se tome consciência de que a articulação dos conhecimentos relativos ao espaço, que é a geografia, é um saber estratégico, um poder. LACOSTE, pag. 09 (1988).

O território, o povo e as instituições políticas são os três fundamentos da expressão política do poder nacional. Se o exército é o braço armado do governo sabemos, portanto, que o projeto de mapeamento territorial no Brasil pelo exército foi, antes de qualquer coisa, um projeto político. Deveríamos responsabiliza-los, portanto, pela configuração do território tal como está.

O Brasil possui um território imenso e rico em recursos naturais, mas permanece subdesenvolvido e o principal obstáculo em seu desenvolvimento é a condição social da população. Em que este mapeamento ajudou a resolver este problema, já endêmico, da desigualdade no Brasil? Sem a pretensão de ir a fundo neste trabalho, mas de tergiversar sobre o assunto, gostaríamos de apontar de que maneira a geografia de maneira geral e o estudo do território de maneira particular, poderia promover desenvolvimento econômico.

Primeiramente precisamos definir do que se trata um desenvolvimento econômico per se. Ora, adiantamos que o projeto desenvolvimentista que nos venderam era apenas uma falácia (ou um mito, segundo Celso Furtado[1]) baseada em um erro de cálculo grosseiro a respeito da capacidade do planeta de se sustentar.

Se o capitalismo é o caminho para esse desenvolvimento, com certeza não seria o capitalismo como o vemos hoje. De fato, observamos com clareza, em campo, nas relações desiguais entre o campo e o homem e o homem e a máquina, que não pode ser nenhuma forma de capitalismo. Mas e o desenvolvimento econômico, ele não é desejável? Segundo Cavalcanti:

(…) Historicamente, o estilo de vida criado pelo capitalismo industrial, que tem sido sempre o privilégio de minorias em toda parte, possui um custo ambiental acentuado pelo “desperdício provocado pela extrema diversificação dos atuais padrões de consumo privado dos grupos privilegiados” (Mito: 74). Projetar esse estilo de vida para o conjunto de países pobres do mundo, supondo que o desperdício e os custos físicos que lhe são associados — mas que os modelos econômicos não internalizam no cálculo de seus impactos — possam ser absorvidos sem traumas pela biosfera, não passa de uma proposição desprovida de consistência palpável. As economias que lideraram o processo de industrialização desde seus primórdios, logrando sempre o controle de grande parte da base de recursos não-renováveis da economia global (…), puderam realizar o desenvolvimento que lhes trouxe à situação de que desfrutam hoje. Furtado (…) apoia-se também nessa constatação para enunciar seu diagnóstico do caráter mítico do desenvolvimento, argumentando acerca da enorme dificuldade de recuperar o atraso por parte daqueles que vieram depois dos líderes do processo. CAVALCANTI, pag. 08. 2003.

Agora, em São Paulo, há um quilombo que está se tornando um patrimônio cultural brasileiro, devido à sua maneira de lidar com a terra e às técnicas não agressivas de cultivo. Do que sobrou da mata atlântica, eles tem o mérito de deter vinte um pontos percentuais daquela conservação[2]. horta Horta comunitária quilombo Mataca Cavalo NS do Livramento

Na reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural (…)o parecer favorável ao registro foi da renomada antropóloga Manuela Carneiro da Cunha. Foi uma conquista importantíssima para as comunidades quilombolas, especialmente porque mostra que há outros olhares sobre as roças e os modos de vida; que o fazer roça é compatível com a conservação da floresta, e que o equilíbrio do ambiente também depende do manejo que os povos tradicionais, que o conhecem, fazem dele.

Isso é uma nova concepção política de como se desenvolver economicamente e está enraizada na cultura de um povo que vêm sendo oprimido a quase quinhentos anos. Com os estudos de diversos acadêmicos, existe uma possibilidade de, através do IPHAN estas técnicas serem consideradas como patrimônio cultural e portanto protegidas de serem destruídas pela expropriação comum nas sociedades capitalistas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Segundo alguns autores como Harari (2015. Companhia das letras), a quebra da bolsa e devido ao crash de 2008 ainda não foi completamente superada e possivelmente a única maneira de isso acontecer é através de descobertas científicas e tecnológicas disruptivas. Essas descobertas são o próprio motor da economia e sem elas o mundo como conhecemos deixará de existir. Ainda, esse não seria o único modo de a globalização acabar. Se não houver uma constante atenção aos desenvolvimentos da inteligência artificial e da bioengenharia, é possível que surjam, em cerca de um século, sociedades divididas não apenas entre ricos e pobres mas também entre mortais e “semi-deuses” (imortais do ponto de vista do envelhecimento), criando uma “especiação” semelhante à que já há entre o Homo Sapiens e todos os outros animais do planeta terra.

Uma outra globalização, portanto não pode ser uma globalização para poucos. É uma globalização que ainda preza pelos valores do liberalismo e do livre mercado, mas também é um desenvolvimento de um capitalismo que não aceita desvios de conduta éticos e morais. É uma economia que mantém a diversidade dos povos, invertendo a pirâmide da dominação — a riqueza nasce da preservação da diversidade e da multiculturalidade.


Referências

ALMEIDA, Alfredo Wagner. “Terras Tradicionalmente Ocupadas: processos de territorialização e movimentos sociais”. Anpur, Rio de Janeiro: ANPUR, p. 1–30, 2004.

ARRUTI, José Maurício Andion. “Propriedade ou território?”. In: Tempo e Presença, v. 21, n. 307, set.- out. 1999. (Acessado em 11/10/2018 no endereço http://www.geografia.fflch.usp.br/graduacao/apoio/Apoio/Apoio_Valeria/flg0563/1s2011/Territorios_Negros.PDF)

CANUTO, Antônio. Agronegócio: a modernização conservadora que gera exclusão pela produtividade. In: Revista NERA ANO 7, N. 5 — Agosto/Dezembro de 2004; (Disponível em http://revista.fct.unesp.br/index.php/nera/article/viewArticle/1466);

CAVALCANTI, CLÓVIS. Meio ambiente, Celso Furtado e o desenvolvimento como falácia. Revista Ambiente & Sociedade — Vol. V — no 2 — ago./dez. 2002 — Vol. VI — no 1 — jan./jul. 2003

CIMI, Relatório de Violência contra os Povos Indígenas. (Disponível em http://www.cimi.org.br/pub/Arquivos/Relat.pdf). Brasília DF, 2014.

CONWAY, Edmund. 50 ideias de economia. Ed. Planeta 2015

DANTAS, ALDO. HORTÊNCIO, TÁSIA. Introdução a Ciência Geográfica. 2. ed. natal: EDUFRN, 2011

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ESTADAO https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,na-web-12-milhoes-difundem-fake-news-politicas,70002004235 Acessado em 14/10/18

HARARI, Yuval Noah. 21lições para o século XXI. Companhia das letras 2018.

HARARI, Yuval Noah. Homo Deus. Companhia das letras 2015.

LACOSTE, YVES. A geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 1988 Acessado em 03/10/2018 < http://geografialinks.com/site/wp-content/uploads/2008/06/geografiayveslacoste.pdf>.

MARTINS, José de Souza. Lutando pela terra: índios e posseiros na Amazônia Legal e Terra e Liberdade: a luta dos posseiros na Amazônia Legal. In: Os Camponeses e a Política no Brasil. As lutas sociais no campo e seu lugar no processo político. Petrópolis: Editora Vozes, 1981. Disponível em http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/9751

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OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. A Geografia das Lutas no Campo. 1998. Ed. Contexto.

PEREIRA, Evelyn Andrea Arruda. TERRITÓRIO, INFORMAÇÃO E CULTURA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES. Universidade de São Paulo Acessado em 14/10/18 em < http://observatoriogeograficoamericalatina.org.mx/egal12/Teoriaymetodo/Conceptuales/15.pdf>

PODCAST MAMILOS — JORNALISMO DE PEITO ABERTO Acessado em 14/10/18 https://www.b9.com.br/97249/mamilos-164-os-desafios-da-democracia/

VÁRIOS AUTORES. O livro da economia. São Paulo. Ed. Globo, 2013.

WASHINGTON POST https://www.washingtonpost.com/world/asia_pacific/as-mob-lynchings-fueled-by-whatsapp-sweep-india-authorities-struggle-to-combat-fake-news/2018/07/02/683a1578-7bba-11e8-ac4e-421ef7165923_story.html?utm_term=.d434a3462efa Acessado em 14/10/18

[1] CAVALCANTI, CLÓVIS. Meio ambiente, Celso Furtado e o desenvolvimento como falácia. Revista Ambiente & Sociedade — Vol. V — no 2 — ago./dez. 2002 — Vol. VI — no 1 — jan./jul. 2003

[2] Por que o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira é patrimônio cultural brasileiro? Acessado em 11/10/2018 https://www.oeco.org.br/colunas/colunistas-convidados/por-que-o-sistema-agricola-tradicional-quilombola-do-vale-do-ribeira-e-patrimonio-cultural-brasileiro/.

  • https://prezi.com/view/Bknml5VUK4Nj7lJh87cz
  • INCRA acesso em 02/10/2018, 20:53. http://www.incra.gov.br/noticias/quilombolas-do-mata-cavalo-mt-terao-acesso-politicas-publicas-da-reforma-agraria>)
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