O que há para depois da quarentena?

Nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito, para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte; como também não há licença nesta peleja; nem tampouco a impiedade livrará aos ímpios.

Eclesiastes 8:8

Primeiramente, reconhecimento. Onde eu estou, afinal, me enfiando? Isso porque eu vou ter que ficar aqui por tempo indeterminado a partir de agora, pelo bom-senso e pela minha saúde e dos meus. Foi então que abri a janela de meu quarto de “meditar e ler” que só tem esse nome mesmo porque na prática eu estava usando a sala para estes fins.

Olhei ao meu redor, livros, muitos livros, um melhor que o outro, todos à minha espera. Livros com Maus do Spielgeman, mas também como As Veias Abertas da América Latina que ganhei de presente dos meus amigos da Geografia. Livros em papel, mas também livros eletrônicos. Centenas deles. Essa quarentena não vai ser tão ruim, pensei.

Claro, os projetos pessoais tiveram que parar. Trabalhar em pesquisa de campo, como a que estava acontecendo, acabou. Estávamos indo em feiras, fazendo uma pesquisa prévia onde alguns produtos eram selecionados, juntos de alguns comerciantes, para representar o universo de preços vendidos ao consumidor. Tínhamos a chance de beber garapa e comer pastel no fim do expediente, o que não era nem um pouco ruim.

As aulas no mestrado, também, cessaram, e segundo reunião do conselho de ontem, por tempo indeterminado. Para mim, como para tantos, isso significa ficar longe dos amigos e daquele ambiente de conversa, afabilidades, cafezinho e descobertas. Também significa que estou a deus-dará em minhas pesquisas e estudos novamente — e com todas essas opções possíveis em aberto não me surpreende que eu tenha paralisado com as escolhas, passando uma semana apenas jogando videogame quando tudo isso estourou.

Eu sou inconsequente o tempo todo, e se as instituições para as quais respondo decidiram ser responsáveis, suspendendo as atividades em resposta à epidemia, em mim o efeito foi dobrado. Se não houvessem sido tão céleres talvez eu não estivesse aqui, talvez houvesse adoecido ou o que é pior, houvesse adoecido outrem. Mas felizmente as instituições sérias, neste país, funcionam ainda.

Este é o mês de aniversário da minha irmã e da minha mãe, e também o mês que perdemos a minha Vó, um ano atrás. Como um prenúncio de tudo que estava para vir, 2018 e 2019 bateram sem dó em todos nós, levando o pouco que tínhamos e que nos trazia conforto. Talvez por isso não nos apavora tanto o que nos traz esse ano; a história do ator que teve sua carta de suicídio divulgada, no entanto, foi muito forte.

Algumas pessoas acreditam piamente que existem quantidades finitas de amor, e que nosso tipo de amor contribui para esgotar o suprimento de onde elas extrairão o seu. Não admito modelos competitivos de amor, só modelos aditivos.

Solomon, Andrew. Longe da árvore . Companhia das Letras.

Mantendo-se longe do mérito da questão, é impossível negar que está sendo um tempo difícil não apenas para idosos, mas para todos. Pesquisa recente apontou que 6 milhões de residências do país não possuem água corrente em casa, o que coloca toda a campanha “fique em casa” ao lado da campanha “salve a economia, vá trabalhar” e similares. Porque não bastou o país demorar para pagar o auxílio emergencial aos empregados informais, ele tinha que pagar pouco. Ao lado da crise sanitária a crise política, como um filho do meio, faz de tudo para chamar a atenção. Se a meta é não cair em cinismo, o obstáculo são as notícias, os políticos e a epidemia.

Se ao menos houvesse minha avó comigo. Se ao menos eu pudesse me despedir do Vitor. Se ao menos o presidente renunciasse. Mas não, claro que não. A vida não para e não espera por condições favoráveis. Os tempos são férteis para especulação, mas quem disse que isso é bom? Como diz uma antiga maldição chinesa: “que você viva em tempos interessantes”.

Alguém ainda vai estudar, talvez 50 anos no futuro, o período de necropolítica que estamos vivendo. Um período onde alguém pode dizer “e daí” para estatísticas de mortos diários quando a conta está diretamente ligada para as medidas de prevenção que essa pessoa não tomou. Agora estudam passaportes de imunidade para garantir que algumas pessoas podem ir e vir livremente para trabalhar e assim girar a economia — uma ideia tão perigosa quanto a de vender um remédio milagroso que ainda não foi testado ou comprovado.

Mas, ao que parece, o charlatanismo e o apego ao pensamento mágico vêm de longe. Em tempos de epidemia, como aprendi jogando o cenário da “Peste Negra” no Civilization VI, surgem amiúde receitas mágicas e poções milagrosas. Assistindo Contágio, filme de 2011, aprendi que o medo e a paranoia são mais transmissíveis que qualquer vírus. O personagem de Jude Law, que o diga, com aquela sua cloroquina ineficaz vendendo igual água.

Alguém diria que deveríamos apostar na resiliência humana antes de desesperar. Que já passamos por coisa pior, que sempre nos levantamos. E de fato haverão sobreviventes e trabalho, coisa que nunca faltou, na verdade. No entanto basta observar as nossas escolhas no processo de crise, as famílias sendo desapropriadas — sendo jogadas na rua quando tem uma epidemia ocorrendo. Ou a decisão no Pará de considerar empregadas domésticas como atividade essencial quando todo mundo deveria ficar em casa cuidando da sua vida (aparentemente algumas dondocas não podem cuidar das suas sem ajuda). Se estamos fazendo isso agora, que mundo haveremos de deixar quando isso passar? Porque vai passar, certamente que vai.

Ao contrário do que parece pelas falas de nossos políticos, não existe apenas uma religião no mundo, a cristã. Ainda assim, essa é a mais conhecida a pregar que um dia o mundo vai acabar, donde virá Jesus para separar os justos dos injustos. Ao contrário do Budismo e outras religiões filosóficas de apreço cósmico, o Cristianismo (junto do ocidente como um todo) tem um senso de progresso e de finalidade, donde se originaria a motivação primordial para guerras e invasões, mas não só isso. Justifica missionarismo e catequização de povos isolados também, e, de certa forma, quando mal interpretadas por políticos com apelo autoritário e fascistas, políticas de segregação e eliminação pelo descaso. Como se os fins justificassem os meios, o apocalipse dos pobres e despauperados já começou, e isso, como sempre, vai ficar na conta de Deus.

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