Para um mundo melhor, para um mundo novo, para um mundo mais digno quando essa pandemia acabar

Em outras palavras, ele estava descrevendo aquilo que ela própria não era: em tudo que dizia sobre si, ela encontrava na sua própria natureza uma negativa correspondente. Essa antidescrição, na falta de um termo melhor, tinha, graças a uma espécie de exposição reversa, deixado algo claro para ela: enquanto ele falava, ela começara a se ver como uma forma, um esboço, com todos os detalhes preenchidos em volta enquanto a forma em si permanecia vazia.

Cusk, Rachel. Esboço. Todavia

Ascensão social é ter o que comer. Todo o resto é firula e penduricalho, distração para os liberais correrem atrás (eu incluso) enquanto o verdadeiro trabalho acontece nos bastidores. Acontece com você também? O silêncio nas redes, às vezes por metade do dia, às vezes o dia todo, e aí nos perguntamos, “onde está o grupo de whats”, “onde estão todos agora que eu não fui convidado, não estou sendo incomodado”, e nisso me incomodo sozinho, porque eu desejava um pouco disso.

Causas e condições, ainda que muitas vezes nada além de ilusões, explicam muito bem aquilo que nos acontece ou que nos deixa de acontecer. Provavelmente meus amigos não me chamem no privado porque sabem que essa esfera dos relacionamentos é bem pouca receptiva de minha parte. Também, os motivos pelos quais antes conversávamos tanto desapareceu, assim como as rotinas antigas. Acostumado a ser direto nas minhas mensagens, descubro que seria melhor ser um pouco mais prolixo de modo a manter o interesse em uma conversa continuada. Ou não?

O assim chamado home office trouxe mais tempo para procrastinar, para mim são três a quatro horas a mais que se ganha evitando o trânsito diário. Má notícia para o bem estar físico que não é mais exercitado como antes (para mim exercício sempre foi uma coisa para alcançar outra). Essa procrastinação, que precisa ser administrada com sabedoria, é inevitável, mas não chega a ser paralisante, ao menos é o que tenho averiguado nos últimos meses. Claro, eu continuo querendo ler mais do que leio, assistir mais do que assisto e jogar mais jogos que tenho jogado.

Viver em confinamento tem sido um experimento psicológico e tanto, e observar o famigerado “poder do hábito” de perto tem permitido encontrar o verdadeiro peso das coisas, ao menos em relação aos dias que se passam. É o caso do trabalho e é também o caso dos estudos. Eu me dispus, ainda em tempos pré-pandemia, a começar uma pós graduação ao mesmo tempo que mantinha uma rotina nove às dezessete como pesquisador e recenseador no IBGE. Com a pandemia e o distanciamento social isso tudo mudou mas o vínculo permanece; descubro no entanto que estudar e trabalhar são formas intercambiáveis de existência, ao passo que aquilo que anseio e que me realiza na vida não.

Isso porque aprender algo novo é uma atividade prazerosa e gratuita, mas produzir no meio acadêmico nem sempre o é; da mesma maneira, fazer parte de um instituto de pesquisas estatísticas pleno de excelentes profissionais, ainda que em um contrato temporário, é uma grande honra, mas ver esse mesmo instituto, e a ciência como um todo, universidade incluso, sofrer ataques, sabotagens e desfalques do governo e da mídia é desalentador. O mesmo liberaloide que se enche de preconceito e memes para criticar o professor ou o carteiro só é mais um artífice nessa guerra ideológica que primeiro desacredita e torna infame para depois desonerar e desestatizar.

Coaching demais, lavagem cerebral demais, mindsetting demais. Todos um esboço de um possível empreendedor — herdeiro bilionário defendendo meritocracia e a pessoa lá, defendendo o bilionário. Essa plataforma mesma, o Medium, não fossem os textos em português e algumas publicações aqui e ali, ia ser apenas mais um linkedin de textão, um painel de coaching, cada um com sua própria receita para enriquecimento, investimento e empreendimento.

Não que algumas coisas não sejam úteis. Talvez sejam. Eu mesmo comprei dois livros do Ryan Holiday, quem sou eu para julgar? Mas se for para ser full conservador, então porque não procurar as fontes? Ou ao menos admitir que se quer ser full conservador. Eu sei que eu desisti (se é que tentei em algum momento). As coisas não precisam ser complicadas. Já dizia Thoureau: simplifique, simplifique, simplifique. E compre livros (se puder e se quiser) enquanto ainda não foram sobretaxados.

O que me realiza afinal (esqueci-me de responder)? Estou escrevendo esse texto para ninguém ler (quase ninguém, salvo meus fiéis nove leitores) e colocando de graça para a internet onde qualquer um pode ler, então já dá para ter uma ideia, ou não? De qualquer maneira, uma linha na areia precisa ser traçada. Trabalhar em casa é traçar uma linha na areia todo dia: hora de trabalhar? aqui esta o equipamento. Hora de relaxar? guarda o equipamento. Hora de estudar? minimize as distrações. Acabou? Recomece. Já dizia um sábio que o cotidiano esconde uma complexidade enorme. James Joyce que o diga, toda a história de Ulisses se passa em um dia.

A cada dia que passa tento ver aquela festa de aniversário de oitenta anos em que contemplo, ao lado de familiares e amigos, tudo o que eu realizei, tudo o que eu aprendi e tudo o que eu deixei para trás. Será que terei lido todos os meus livros? (Hoje enterramos um gato morto no quintal. Estava putrefato já, e morreu embaixo de umas plantas ornamentais que temos aqui. O gato não era nosso, e morreu provavelmente porque brigou demais com outro gato. Um morrinho do lado do muro, esse gato esta definitivamente morto.) Nunca haverei de ter a vida que eu sonho em ter. E tudo bem.

De certa forma escrever aqui, se abrir aqui e falar aqui é bem fácil. Nunca foi difícil mesmo havendo tanto ódio gratuito na internet. Entendo agora que eu estava vendo somente metade do que realmente acontecia; eu já publiquei foto nu (tá, seminu, nada que fosse explícito) só para aprender que é a única coisa que explode uma estatística de verdade. Também escrevi em outros lugares sobre experiências com drogas, sobre abusos e sobre rejeições. Entendo agora que eu era privilegiado esse tempo todo porque eu como homem posso falar o que quiser e tá tudo bem. O julgamento é sempre mais leve para um cara, e eu, estúpido, achava que defendia a minha verdade.

Aconteceu mais de uma vez, por exemplo, ter que apagar uma postagem porque elas não gostaram do que eu escrevi ou do que eu postei; eu achei na época que era excesso de auto imagem, mas me ocorre agora que a internet (e o âmbito cultural em geral) é muito mais severo com elas, e baseado nisso eu revi minhas concepções de verdade nas minhas publicações (“Veritas” segundo meu professor no primeiro ano de filosofia). Ainda há muito o que fazer (compartilhar mais textos de mulheres, não se guiar somente por imagens preconceituosas de mulheres na rede mas entender que elas compõe um imaginário muito mais amplo que vai desde a magia ao caos, da ciência ao átomo), mas já um começo.

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