Resenha de “Um Outro Amor”, de Karl Ove Knausgård

capa

Couple Taking a Stroll - Ernst Ludwig Kirchner 1907

A ternura que eu sentia por Vanja era tão forte que chegava quase a me despedaçar.

“Tudo começa com ternura”. Lembro de pensar isso quando comecei a ler o segundo livro do Knausgård, Um Outro Amor. Isso foi em setembro de 2019 (sim, levei sete meses para acabar, isso que dá ler vários livros ao mesmo tempo, e por causa disso, nessa semana acabei três de uma vez), em um dia que ficou marcado na minha memória porque foi um dia aqui em casa que houve um escarcéu daqueles, envolvendo funk proibidão, polícia e ódio gratuito, mas isso fica para outro dia.

Quando li este livro, não inocentemente, eu buscava, como sempre venho buscando, saber um pouco mais sobre a vida que nunca tive, a saber, a vida de um pai de família. Mas não um pai de família qualquer, mas um pai de família que por acaso era escandinavo e escritor; enfim, uma vida que definitivamente eu nunca teria a chance de viver, mas que por razões que aos poucos vão ficar mais claras , eu nem mesmo precisaria, e que ressoa justamente na vida que cada um pode ter, que é a vida contemporânea.

Como eu dizia, o sentimento de Ternura de que Knausgård fala era a minha ponte para o coração do pai; eu posso não saber como é ter uma criança e vê-la crescer, mas sei o que é ser um filho, e como é sentir ternura pelos próprios pais. De amá-los incondicionalmente, mesmo sabendo de todas as suas falhas, esse sentimento podendo às vezes tomar uma proporção esmagadora, como uma vez que fiz um retiro de meditação no Rio em 2013, e tive que ficar em uma cabine sozinho o dia todo; tudo o que habitava em mim então, tudo o que importava e que compunha meus pensamentos eram meus pais.

O leve desprezo que eu sentia por homens que saíam a passear com carrinhos de bebê era no mínimo ambíguo, uma vez que eu mesmo quase sempre estava empurrando um quando os via. Um outro amor (Minha luta) (Knausgård, Karl Ove)

De ternura eu entendia, e portanto poderia entender o olhar do autor. A conexão feita, não significava que estava tudo resolvido. Além de pai de família ele era um artista, um escritor que escrevera dois livros premiados e que enfrentava a pressão do sucesso e da expectativa que isso cria. Para mim os melhores momentos eram as vezes em que o artista e o pai se chocavam, pois dali eu poderia tirar algo para mim, entender o que eu perdia e o que eu não perdia nesta vida de manter uma família. Knausgård, no entanto é mais do que pequenos atritos da vida cotidiana, e seus livros são cheios de digressões, reflexões e filosofia da arte; mas uma coisa não anula a outra e se pode lê-lo sabendo que ambos os modos são satisfatórios.

Pode-se dizer muita coisa a respeito da nossa autoimagem, mas o certo é que não se forma nos frios salões da razão.

Esse livro provavelmente já é meu favorito, embora eu ainda não tenha lido do terceiro em diante. A pressão de ser a continuação, de ser o filho do meio, de superar o primeiro, acho, foi enfrentada e vencida. Não poderia recomendar mais. Não sei se Knausgård, no entanto, faria o mesmo. Parece que uma parte da sua família não fala mais com ele por causa do que ele revelou sobre seu pai; também, ele e a Linda, sua esposa ao longo de todos os livros e mãe do seus filhos e cuja história inteira ele narra aqui, hoje são separados. Fiquei um pouco triste quando soube disso, mas também não fiquei surpreso. Eu e Fatima em casa. 1º de janeiro de 2020

Minha coisa com Knausgård e esse lance de transformar a própria vida em ficção, a famigerada autoficção que estava em voga a poucos anos atrás e que tem no próprio Knausgård um expoente, me pareceu até bem pouco tempo, a única maneira de fazer uma arte fiel à realidade. Digo isso porque as narrativas, no começo deste século, ameaçam amiúde colapsar a qualquer momento; porque, como o pós-moderno já apontou, o leitor cria a leitura e a interpretação é em si um ato criativo; por que a globalização abriu a possibilidade de desterritorialização e com ela o homem sem qualidades palpáveis, translúcido, que contempla o mundo, é parte do mundo, mas não tem raízes de espécie alguma.

Não que seja esse o caso, sempre, em Knausgård. Existe todo um mundo de cultura nórdica contemporânea para além de Lars Von Trier e Bergman que ele faz questão de comentar. Principalmente em literatura, que é discutida à exaustão pelo narrador e seus interlocutores: autores conhecidos como Stieg Larsson, sim, mas tantos outros que eu nunca havia ouvido falar. Não que seja uma palestra ou coisa do tipo, ele fala como quem assume que já é conhecido de quem lê; e assimilar fica tranquilo, pois a cultura europeia (e a cultura dos países escandinavos em especial) é interessantíssima por si só. Ser um louco por Bergman também ajuda.

Acompanhar a trajetória do Knausgård, coração quebrado após uma separação, começando a vida do nada em Estocolmo tem uma ressonância especial também, afinal, quem nunca teve o coração quebrado e teve que recomeçar do zero? Ainda assim, Estocolmo, na Suécia, é uma das cidades mais bonitas que já vi em filmes e séries, mas entendo que quando estamos tristes como ele deveria estar não vejamos isso. País com grande índice de desenvolvimento , junto com a Dinamarca e a Noruega, e o mais rico dos três, é um sonho de todos que buscam um mundo onde a desigualdade social foi quase eliminada. Não à toa o bordão “tá pensando que tá na Suécia?” sempre aparece quando se começa a idealizar demais um país em detrimento de outro.

As pessoas com quem eu dividia o escritório eram boas companhias, porém tão cheias de uma bondade radical de esquerda que fiquei pasmo quando eu, que durante uma conversa rápida enquanto esperávamos o café aprontar tinha usado a palavra “preto” e sido imediatamente corrigido, descobri que o homem que limpava o escritório deles, a cozinha deles, o banheiro deles, era negro. Eram todos solidários e igualitários e tinham fala mansa, o que por assim dizer estendia um véu sobre a realidade, que desta forma podia seguir o próprio caminho de maneira injusta e discriminatória longe do olhar de todos.

Ideal porém não perfeita, muitas vezes Knausgård preenche as páginas com comentários críticos à maneira de viver dos suecos. Também, ele teve uma rusga com uma vizinha do andar de baixo que pela cor e pelo cheiro, em nada deveriam aos barracos entre vizinhos no Brasil. Para Knausgård, a escolha de uma sociedade politicamente correta e de bem estar social criou sujeitos oprimidos, sem virilidade ou honra, com medo de qualquer faísca de dor ou de violência — não que isso seja mal ou bom, é apenas uma coisa que o Knausgard adulto notou quando viu o clube de boxe do seu amigo, que era uma exceção à regra. Da minha parte penso que não é a sociedade quem tira a virilidade ou a violência do homem, mas ele quem a oculta para manter as aparências — aquilo que se é sempre vêm à tona.

Um país de classe média, como eu defino, a Noruega e seus vizinhos, são países minúsculos se comparados ao nosso, tanto em população como em território; sua social democracia dificilmente se aplicaria à nossa cultura, ainda assim eu aprecio notar as nuances sociais que a vida nestes países desenvolvidos traz; mesmo quando nem entre eles é um consenso.

Desde o meu primeiro dia na escola, eu e todos os meus colegas tínhamos sido educados para pensar de maneira crítica e independente. Que esse pensamento crítico só era bom até um certo ponto, e que além desse ponto se transformava no próprio oposto, em um pensamento mau, ou na própria essência do mal, foi uma ideia que só me ocorreu quando eu já tinha passado dos trinta.

Um outro amor, como o título revela, é um livro sobre amor, e sobre outro amor, que pode ser tanto a Literatura quanto a Família. Não pretendo revelar, não sei realmente, mas gosto de pensar que sua temática principal é sobre as várias facetas do amor e dos relacionamentos em nossa vida. Ao longo do livro acompanhamos as reviravoltas que a vida deu para juntar Linda e Karl Ove, e em como mesmo estando apaixonados, eles tiveram dificuldades e lutaram muito para se manterem unidos; também vemos seu amor pela sua mãe e o livro se encerra citando de maneira literal o amor da sua mãe pelo seu pai — até então tido como uma pessoa não muito boa pelo narrador. A sua arte também, é o grande amor que permeia todo o livro, e poderia muito bem ser este outro amor; além das discussões sobre filosofia da arte e literatura, acompanhar Knausgård é um incentivo ao artista que luta pela sua visão, apesar de todos os empecilhos.

Alguém pode argumentar que o livro é muito “classe média sofre”, e não estaria errado. Ler sobre a vida de um escritor nórdico preocupado em parecer efeminado quando leva sua filha na aula de dança para bebês, na atual conjuntura do mundo, pode parecer quase escapismo, não fosse o aspecto catalisador da arte — sonhar não com ideias, mas se informar da materialidade daquilo que já sabemos intuitivamente quando nascemos — que o mundo não é mal, e que as pessoas podem alcançar uma vida digna .

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