Shoah e as lições que os 75 anos de liberação do campo de concentração de Auschwitz pode nos dar

"השואה"

No flanco sul do avanço a partir do Vístula, as tropas de Konev invadiram Cracóvia. Por sorte, a antiga cidade foi abandonada sem lutas. Em 27 de janeiro, no meio da tarde, uma patrulha de reconhecimento da 107ª Divisão de Infantaria surgiu de uma floresta coberta de neve e descobriu o símbolo mais terrível da história moderna.

Beevor, Antony. A Segunda Guerra Mundial. Record. Edição do Kindle.

Segunda feira, 27 de janeiro, cinco dias atrás portanto, celebrou-se — no mundo inteiro, mas principalmente em Israel — o fim do Holocausto, simbolizado com o fechamento do campo de Auschwitz pelo Exército Vermelho. No Twitter o termo exército vermelho estava em ascensão. Muitos celebravam o dia em que os Comunistas derrotaram os Nazistas como se fosse uma vitória da humanidade. Isso faz sentido uma vez que os crimes dos Nazistas contra minorias étnicas e, preponderantemente, contra os Judeus, geraram uma nova categoria de crimes que nunca antes havia sido contemplada, os crimes contra a humanidade.

Eu assisti, a propósito desta efeméride, o documentário de Claude Lanszmann de 1985, Shoah. Um filme monumental, que ultrapassou todas as categorias que um mero documentário pode esperar. Shoah, um termo para Holocausto, passou a ser usado em estudos sérios sobre o Holocausto e seu trabalho se tornou esteio para tudo que viesse depois em relação ao assunto.

Claude Lanzmann, morto em 2018 com 92 anos, era amigo de Sartre e Beavoir, e viajou o mundo todo colhendo depoimentos para aquela que viria a ser sua obra-prima. Foram seis anos de viagens, pesquisa e filmagens e outros cinco anos de edição — 11 anos para um filme de 566 minutos de duração. Sim, cada minuto da película envolve 6 dias e meio de trabalho. Falando três línguas diferentes Lanzmann ainda lança mão de tradutores para as línguas que não conhece. Ousado, apaixonado, inquieto, em momento algum podemos duvidar de sua sede de descobrir a verdade.

Filmando ex-oficiais da SS. com câmeras ocultas e usando placas sinalizadoras falsas para emular a sensação de chegarmos a uma estação em Treblinka, ou uma estação em Chelmno — com um maquinista polonês que realmente esteve lá para dar seu depoimento em um trem a vapor alugado apenas para a filmagem — Lanzmann enfrentaria alguma críticas, principalmente do governo polonês por pintar os poloneses como vilões. (O que eram, de certa forma, uma vez que vilão é aquele que vive em vilas, e foram próximas a elas que ocorreram as matanças).

Claude Lanzmann

HOLOCAUSTO (segundo dicionário Houaiss)

n. substantivo masculino

4 Rubrica: história.

massacre de judeus e de outras minorias, efetuado nos campos de concentração alemães durante a Segunda Guerra Mundial

Etimologia
 grego: holókautos (ou holókaustos),os,on ‘sacrifício em que a vítima é inteiramente queimada’, pelo lat. holocaustum,i ‘id.’

O Holocausto, como está no primeiro parágrafo do excelente artigo em português na wikipedia: “foi o genocídio (…) de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial (…), através de um programa sistemático de extermínio étnico patrocinado pelo Estado nazista, liderado por Adolf Hitler e pelo Partido Nazista e que ocorreu em todo o Terceiro Reich e nos territórios ocupados pelos alemães durante a guerra”.

Sobrevivente de Auschwitz comemora 104 anos com 400 descendentes no muro das lamentações

Um dos acontecimentos mais sombrios de toda a história da humanidade pois_,_ “Dos nove milhões de judeus que residiam na Europa antes do Holocausto, cerca de dois terços foram mortos; mais de um milhão de crianças, dois milhões de mulheres e três milhões de homens judeus morreram durante o período” (idem).

Falar do Holocausto levando em conta apenas números, no entanto, pode ser problemático, criando um falso distanciamento da realidade do que aconteceu ali — afinal cada um dos inocentes sacrificados era uma história, um futuro em potencial (link para notícia da sobrevivente de Auschwitz com 400 descendentes reunidos, em inglês). Porém, usar de exemplos qualitativos também é difícil, principalmente nos dias de hoje quando fomos bombardeados há muitos anos com filmes e livros sobre o assunto. Meu primeiro contato verdadeiro com o horror deste evento, no entanto, aconteceu por meio de uma HQ chamada Maus.

Maus é uma Graphic Novel do cartunista americano Art Spiegelman, criada ao longo de 1980 a 1991. Ela conta a história do seu pai Vladek Spiegelman tentando sobreviver aos horrores da guerra e de como ele escapou das garras dos nazistas. Falar de garras aqui é literal: ele utiliza de metáforas visuais para demonstrar os lados da guerra e desenha os nazistas como gatos, os poloneses como porcos e os judeus como ratos (daí o título maus, rato em alemão). Ganhou o prêmio Pulitzer (o maior reconhecimento ao jornalismo nos Estados Unidos) em 92, a primeira história em quadrinho a realizar o feito.

Eu mesmo não poderia recomendar mais para quem se interessa no assunto — mesmo sabendo que é uma história que destrói nossas ilusões a ponto de arrancar lágrimas. É também uma mistura de gêneros como biografia, história, ficção e memoir onde ao longo da história de sobrevivência de Vladek, seu pai, Art desabafa suas agruras como artista e do desenvolvimento doloroso pelo qual ele passa enquanto escreve. Com sua narrativa usando de experimentação e técnicas pós-modernas, foi para mim uma das grandes descobertas artísticas de toda a vida e mesmo para mais de dez anos que leio e releio, continua sendo.

Alguns historiadores argumentam de modo plausível que a decisão básica de perpetrar o genocídio ocorreu em julho ou agosto de 1941, quando uma vitória rápida ainda parecia ao alcance da Wehrmacht. Outros pensam que isto só ocorreu no outono, quando o avanço alemão na União Soviética diminuiu perceptivelmente e a “solução territorial” pareceu cada vez mais impraticável. Alguns o situam mais tarde ainda e sugerem a segunda semana de dezembro, quando o exército alemão parou nas proximidades de Moscou e Hitler declarou guerra aos Estados Unidos. O fato de que cada Einsatzgruppe interpretasse a sua missão de um modo ligeiramente distinto sugere que não havia uma ordem emitida de um ponto central. Só a partir do mês de agosto o genocídio total tornou-se um padrão, quando mulheres e crianças judias passaram a ser mortas em massa.

Beevor, Antony. A Segunda Guerra Mundial . Record.

Art Spigelman em Maus, mais do que uma obra sobre o Holocausto, um hino de amor à arte sequencial

Conhecendo a história vemos que não se tratou de um mero genocídio, o Genocídio Armênio entre 1915 e 1918 possivelmente tão horroroso quanto o Holocausto , por exemplo, e daí a especificidade da palavra Shoah utilizada por Lanzmann; os Judeus sendo um povo perseguido ao longo da história mas também um povo de importante participação na história da Europa; a sua incrível resiliência e também um senso trágico que só aumentou enquanto eram fechados em guetos; a catástrofe, enfim, dos campos de concentração. Nenhum motivo justificaria o que aconteceu contra o povo Judeu e ainda assim muitos tentam fazê-lo.

(…) Agora, a única solução certa parecia ser o extermínio industrializado. Uma grande impaciência em dar cabo da tarefa agitava o governo nazista, tanto em Berlim como — e principalmente — no feudo francês do Generalgouvernement. (…) Durante a “Shoah pelas balas”, “os assassinos na União Soviética ocupada se mobilizaram para [encontrar] as vítimas”, mas na “Shoah pelo gás” “as vítimas foram trazidas até os assassinos”.61 Este processo começou a ser levado a cabo inicialmente nos campos de extermínio de Chelmno (Kulmhof), onde foram usados caminhões de gás, e continuou em Bełzec, Treblinka, Sobibór e depois, no verão, em Auschwitz-Birkenau.

Beevor, Antony. A Segunda Guerra Mundial . Record. Edição do Kindle.

O antissemitismo é um sentimento que atravessa classes e regiões — seja o rapaz bem-educado de classe média, seja o caipira iletrado, muitos tentam dizer que o Holocausto era inevitável, um castigo divino, fechando os olhos para a grande campanha persecutória de Goebbels e de toda a máquina de propaganda nazista, por exemplo. Lanzmann nos mostra exemplos pungentes de antissemitismo ao longo do filme mas eu trago os meus próprio comigo. Estudar o Holocausto, conhece-lo e celebrar o fim dele é dizer Nie Wieder, Nunca Mais, quantas vezes forem necessárias; para sempre se preciso for.

Um aparato administrativo formidável foi montado para lidar com os judeus que ainda não haviam morrido nos guetos nem haviam sido fuzilados. (…) O elemento mais essencial na operação era o transporte. O planejamento e os cronogramas tinham uma importância vital. O Sistema Ferroviário do Reich, com 1,4 milhão de funcionários, era a maior organização alemã depois da Wehrmacht e tinha lucros consideráveis. Os judeus eram transportados em vagões de carga e gado com bilhetes só de ida, ao mesmo custo dos passageiros que pagavam passagens. Os tíquetes dos guardas da Ordnungspolizei eram de ida e volta. O dinheiro para pagar tudo isto era confiscado pela Gestapo de fundos judaicos.

Beevor, Antony. A Segunda Guerra Mundial . Record. Edição do Kindle.

Hannah Arendt, seguindo uma corrente filosófica que se origina com Agostinho de Hipona vai apontar a aparente banalidade do mal, no sentido de que mesmo pessoas medíocres e banais são capazes de perpetrar atos monstruosos contra a humanidade. Não deveríamos esperar por monstros quando tentarmos entender as atrocidades do Nazismo uma vez que não há resposta simples para esta pergunta que não seja equivocada; deveríamos ao invés disso observar no nosso cotidiano os pequenos deslizes que comprometem nossa virtude e moralidade; observar uma injustiça e não intervir é participar da mesma injustiça. Segundo ela:

Eichmann não era nenhum Iago, nenhum Macbeth, e nada estaria mais distante de sua mente do que a determinação de Ricardo III de “se provar um vilão”. A não ser por sua extraordinária aplicação em obter progressos pessoais, ele não tinha nenhuma motivação. E essa aplicação em si não era de forma alguma criminosa; ele certamente nunca teria matado seu superior para ficar com seu posto. Para falarmos em termos coloquiais, ele simplesmente nunca percebeu o que estava fazendo.

Hannah Arendt. Eichmann em Jerusalém — Um relato sobre a banalidade do mal

Aparentemente, e para grande surpresa, a falta de imaginação e irreflexão valeria até mesmo para Hitler que:

Apesar das diatribes apocalípticas contra os judeus, Hitler parece ter sido bastante relutante em ouvir detalhes dos assassinatos em massa, da mesma forma com que se esquivava de quaisquer imagens de sofrimento nas batalhas ou nos bombardeios. O desejo de manter a violência como algo abstrato era um paradoxo psicológico significativo para quem havia feito mais do que quase qualquer outro na história para provocá-la.

Beevor, Antony. A Segunda Guerra Mundial . Record. Edição do Kindle.

Lanzmann vai nos apontar que muitas das ações da Alemanha Nazista contra os Judeus não eram novas; a novidade estava nos campos de concentração com os crematórios, os caminhões de gás desenhados para esse propósito — ele lê um documento secreto onde há um estudo de como fazer um caminhão melhor para matar pessoas, com detalhes horripilantes como a previsão de para onde as pessoas iriam e como iriam se comportar quando as luzes se desligassem. Outros detalhes absurdos surgem, como a cobrança das passagens nos trens da morte por cada judeu; como a cobrança do muro ao redor do gueto que protegeria os demais habitantes de Varsóvia ou a cobrança de 500 marcos por Schumel, um ex-oficial Nazista de Treblinka, para dar seu depoimento no documentário. A ganância nos dá sua faceta mais obscura quando empresas como IG Farben começam a usar do trabalho forçado para ganhar dinheiro, Oswald Pohl criando um semi-império com a expansão dos campos no Leste da Polônia ocupada.

O Obergruppenführer Oswald Pohl (…,) responsabilizou-se pela supervisão e coordenação das atividades, tarefa difícil com tantas facções nazistas rivais. Burocrata dedicado, Pohl estava decidido a tornar o processo o mais eficiente e produtivo que fosse possível. (…) O ouro dos dentes devia ser extraído antes de os corpos serem incinerados ou enterrados. Roupas, sapatos, óculos, malas e peças íntimas eram reunidos e levados de volta ao Reich para serem distribuídos entre os necessitados, geralmente aqueles que haviam perdido tudo nos bombardeios. Os fios de cabelo, colhidos antes de as vítimas entrarem nas câmaras de gás, supostamente tinham melhor propriedade de retenção do calor do que a lã e eram tricotados como meias para as tripulações da Luftwaffe e dos U-boats, mas a maior parte virava estofo de colchão.

Beevor, Antony. A Segunda Guerra Mundial . Record. Edição do Kindle

Compreender a causa do Holocausto implica em ir além da Segunda Guerra em si, e compreender como o Tratado de Versalhes e o sofrimento do povo alemão antes da ascensão do fascismo foi campo fértil para a maioria dos atentados contra os Judeus que foram, aos poucos, implementados. É importante lembrar que antes da guerra e da invasão da união soviética, a Alemanha e Hitler eram ainda visto como do lado certo da história; Hoje, Trump diz que vai levantar um muro separando México dos Estados Unidos e que são eles quem vão pagar a conta. Aqui, Bolsonaro compara indígenas a sub-humanos quando diz que eles hoje são pessoas quase como a gente — os exemplos de neofascistas no poder não acabam — como aponta um artigo do Umair Haque falando exclusivamente de China, India e Reino Unido.

Guernica, Picasso, Pablo. 3,49 m x 7,77 m. 26 de abril de 1937–junho de 1937

Há uma anedota bem conhecida em que um oficial alemão visitou Picasso em seu estúdio em Paris durante a Segunda Guerra Mundial. Chocado com o “caos” vanguardista da Guernica, perguntou a Picasso: “Foi você que fez isto?”. Ao que Picasso replicou, calmamente: “Não, isto foi feito por vocês!”. Atualmente, muitos liberais, ao serem confrontados com explosões violentas como as desordens de 2005 nos subúrbios de Paris, perguntam aos poucos esquerdistas que ainda apostam numa transformação social radical: “Não foram vocês que fizeram isto? É isto que vocês querem?”. E nós deveríamos responder, como Picasso: “Não, foram vocês que fizeram isto! Este é o verdadeiro resultado da sua política!”.

Slavoj Žižek. Violência. Ed. Boitempo.

As armas da Segunda Guerra dos alemães foram antes testadas na guerra do General Franco contra seu próprio país. Hitler, antes de ser o Führer era uma soldado na Primeira Guerra. Se na história há um movimento cíclico, torna-se vital lembrar que violência não se resolve com violência. E isso se aplica tanto para nações como para indivíduos. Se hoje somos governados por déspotas, precisamos no lembrar que eles passam, e que suas ideologias não nos definem. Nunca percamos as esperanças.

Logo após o fim da guerra, em 1946, os israelenses não temiam explodir uma bomba em um hotel para atingir seus objetivos estratégicos. O estado de Israel é uma respeitada força militar apesar de tudo que aconteceu com seu povo, e talvez por isso mesmo — se alguém tem direito de se defender deveriam ser eles. Mas depois de ver Shoah, e toda a carga de sofrimento pela qual passou o povo Judeu, não acredito que possa encontrar sentido que justifique qualquer coisa, principalmente a beligerância.

O fascismo sempre estará por perto enquanto houver democracia — pela simples razão de que a “vontade da maioria” pode ser deturpada, e muitas vezes é. Conhecer os limites da tolerância é uma lição que Shoah pode nos dar, ainda que ela seja mais do que isso — ela é mais do que qualquer palavra, filme ou planilha de estatística pode afirmar.

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Comments
  1. ROBÔ-RESUMISTA — Dec 31, 2023:

    O texto oferece uma análise profunda e reflexiva do Holocausto, indo além dos fatos históricos para explorar o impacto e as consequências desse evento terrível. A inclusão de referências literárias, cinematográficas e filosóficas acrescenta várias camadas ao comentário, permitindo que o leitor veja o Holocausto sob diferentes perspectivas.

    A menção do documentário "Shoah" de Claude Lanszmann e do livro "Maus" de Art Spiegelman oferece um olhar sobre como a arte pode ser usada para explorar e interpretar eventos históricos. Além disso, a referência à "banalidade do mal" de Hannah Arendt é uma poderosa lembrança de que as atrocidades podem ser perpetradas não apenas por monstros, mas também por pessoas comuns.

    A análise do autor sobre o antissemitismo e o fascismo, assim como a menção ao Tratado de Versalhes e ao sofrimento do povo alemão antes da ascensão do fascismo, contribui para uma compreensão mais profunda das causas do Holocausto. Isso destaca a importância de entender o contexto histórico e social em que esses eventos ocorreram.

    No entanto, o autor poderia ter explorado mais a perspectiva dos sobreviventes do Holocausto. Embora ele mencione a resiliência do povo judeu, a narrativa poderia ter sido enriquecida com histórias pessoais ou testemunhos de sobreviventes.

    Em geral, este é um comentário bem escrito e instigante que desafia o leitor a refletir sobre o Holocausto e suas implicações duradouras. O autor usa uma variedade de recursos para abordar o tema, resultando em uma análise que é ao mesmo tempo informativa e emocionalmente impactante.