Um adeus ao meu avô

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Cumpre assentir ao peso deste instante extremo;
Falar o que sentimos, não o que devemos;
Para os velhos foi duro, e nós, que somos tão jovens,
Jamais veremos mais nem viveremos tanto.

Rei Lear — Ato V, Cena III

Uma perda irreparável. Um completo desamparo e absoluto desespero e vazio existencial. E é assim que tem que ser, de que outra forma poderia ser. O meu último avô, e também o único, pois foi como as as coisas aconteceram na nossa família, faleceu, e sem nem mesmo se despedir, partiu, deixando uma enormidade de vazio: meu avô era o patriarca, era o velho sábio que recebia seus netos sempre com amor; ele é parte das minhas memórias mais queridas da infância e adolescência. Vê-lo ser enterrado foi como ver minha própria história desaparecendo.

Uma das últimas coisas que o Vitor me revelou antes de nos separarmos em 2015, naquilo que seria nossa última reunião, era que ele fugira da cidade onde vivia e onde conhecera aquela que seria a minha mãe por medo do poderoso Ivo. Para ele foi a chance de começar a vida do nada no oeste, onde eu o encontraria dezoito anos depois (justiça seja feita, ele tentou depois encontrar ela e me ver, mas já era tarde). Eu nunca vi meu vô assim, e se ele tinha lá suas peculiaridades, certamente coronel nunca foi uma delas. Fato é que com a morte deles dois se perdem, em três anos, dois ramos principais da minha árvore genealógica.

eu, meu avô e minha mãe

Figuras paternas, claro, não precisam ter genes compartilhados, mas o desamparo persiste. Sem irmãos ou filhos, a impressão que eu tenho é que a natureza, o destino, ou Deus, quer de todo modo me exterminar: como um rio que seca aos poucos ou como um deserto que se espalha sobre a floresta. Cada dia que passa fica mais evidente que temos que amar quem temos ao nosso lado, não porque é apenas a coisa mais certa a se fazer, mas porque no fim não vai restar mais nada.

O ditado taoísta que diz ser essa a melhor solução da vida, que os filhos enterrem seu pais após uma vida de respeito e cuidado ao invés de os pais enterrarem os filhos, não comenta que muitos destes sábios taoístas buscavam a imortalidade a qualquer custo. A cada um seu quinhão de dor; meu avô não morreu aos oitenta anos e dois anos, ele sobreviveu oitenta e dois anos, pois cada dia que passa não estamos mais perto da morte, mas sim com um dia a mais de vida.


“Todas as pessoas do mundo têm o mesmo direito aos privilégios deste mundo”.

“A igualdade não pode ser alcançada, como algumas pessoas pensam, somente por medidas civis. Ela só pode ser alcançada por amor a Deus e às pessoas, e este amor pode ser alcançado, não por medidas civis, mas somente como resultado do aprendizado espiritual”.

“Dizem que a igualdade não é possível, porque algumas pessoas serão sempre mais fortes ou mais espertas que outras. Mas é exatamente por isso, (…) porque algumas pessoas são mais fortes e mais espertas que outras, que o princípio da igualdade é necessário. As vantagens dos ricos sobre os pobres demonstram não apenas desigualdade de força e intelecto, mas desigualdade de direitos civis.”

“Cristo revelou à humanidade as coisas que eles próprios já sabiam: que as pessoas são iguais porque o mesmo espírito vive em todos eles…. Aprender com as crianças pequenas, comportar-se como crianças e tratar todas as pessoas em pé de igualdade, com amor e ternura.”

~ Leon Tolstói. A Calendar of Wisdom: Daily Thoughts to Nourish the Soul

Ou, como diz o ditado italiano, ao fim do jogo de xadrez, tanto peão como rei voltam para a caixa. A chance de fazer o mundo um pouco melhor e a vida um pouco mais justa existe apenas neste tempo em que temos entre nosso primeiro e último suspiro. Hoje faz uma semana que meu avô, Ivo de Barros, partiu, e tenho aqui comigo que graças a ele e tudo o que ele representa eu também posso ser um homem melhor.

Agradeço a todos que expressaram seus sentimentos; àqueles que não o fizeram, eu sei, e entendo, que o silêncio pode ser um sinal de clareza e de entendimento: que palavras existem que possam aplacar a dor de perder um ente querido? Mais ainda, que palavra poderia fazer isso pelos duzentos e quarenta mil que partiram tão repentinamente nessa mesma ocasião? Não é apenas minha família que passa por um processo de luto, mas um país inteiro. E se a dor é purificadora, que fique expresso o meu desejo mais profundo que não apenas minha família saia mais unida desse processo, mas o meu país também.

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