Uma reflexão urgente sobre o que me move desde que me conheço por gente

Eu cresci em uma cidade muito pequena, de dez a vinte mil habitantes no norte de um estado já não muito populoso — o que me fez ser chamado, por exemplo, de “fazendeiro” e “matogrosso” algumas vezes. Tudo o que eu faço e fiz na minha vida nos últimos 20 anos foi condicionado por esta cultura do vazio e a vontade de preencher o vazio de cultura — até o limite — o que levou a um choque cultural algumas vezes, mas que sempre acabou balanceado no fins das contas, afinal o Vazio é impreenchível.

Ainda assim, não é possível dizer que em uma luta com a cultura você vá ganhar — ela é invencível, pois se trata dos esforços de centenas de homens e mulheres ao longo da história. E como disse Kafka, na luta do homem com o resto do mundo, aposte no mundo. Filmes, livros, música e jogos: NADA REALMENTE FUNCIONA PARA MUDAR NOSSA CONDIÇÃO HUMANA. No fim das contas precisamos retomar nossa vida de um modo ou de outro e, se sem estas formas de escape a vida seria mais dura ainda, eu devo admitir que nunca consegui chegar nesse momento em que eu diria, “permaneça (momento), tão belo que és”.

Eu acuso a minha mesma criação interiorana, somada à crise constante pela que passa o capitalismo, por criar essa síndrome de acumulador; em um cálculo que eu fiz, usando planilha e tudo, estimando o tempo que eu levava para ler meus livros, só de livros eu tinha suficiente para ler pelos próximos dez anos. Isso sem contar os filmes, os games e as músicas. Isso sem contar os artigos incríveis que publicam na internet todo dia, ou os filmes novos no cinema. Eu não me vejo lendo tanto pelo próximos dez anos. Ainda assim, me sinto empurrado para isso.

Lost in the words — Raman Singh

“Tantos livros, tão pouco tempo”. Foi Frank Zappa quem disse isso. E na minha pirâmide das necessidades de Maslow, os livros e a cultura de um modo geral estão na base. Isso porque a vida não é suficiente às vezes, mas também porque eu quero que a vida seja muito mais do que ela é e têm sido. Sou um pouco Madame Bovary neste ponto, mas também ressoa em mim Álvaro de Campos quando digo que quero viver tudo intensamente — mas já é tarde e preciso trabalhar amanhã.

Trabalho esse que me toma tempo e dá apenas dinheiro em troca; não peço outra coisa, mas é um fato; o homem nasce, trabalha até morrer e isso é tudo. Nos interstícios, nas pequenas fissuras da vida cotidiana é que estão as escolhas verdadeiras, aquelas que podem fazer da nossa vida uma grande vida. Mas, é claro, ninguém sabe o que vem à seguir. Ontem eu escrevia para não enlouquecer, há quatro anos sem emprego, precisando preencher meu tempo livre. Hoje escrevo para preencher a lacuna de quem já devorou cultura demais mas que não pretende parar, em um movimento antropofágico, autoreprodutor e infinito.

As consequências já se anunciam. Não consegui concretizar meu plano de trabalhar no cursinho pré-vestibular gratuito que meus colegas tão altruistamente se engajaram — percebi aos poucos que o compromisso não suportaria a pressão de trabalhar todo dia. Se serve de consolo, fui o conector, junto de minha esposa, que deu vazão à generosidade da sobrinha dela, quando doou uma geladeira para esse pessoal.

Outros acontecimentos sugerem que tudo é relacionado — eu também não consegui me organizar financeiramente ainda, para auxiliar os movimentos que eu admiro — ou que me ajudaram quando eu precisei. Isso pode incluir instituições como a igreja ou ONG’s, coisa que quero há muito tempo. Doações são nossa melhor aposta contra o capitalismo. Mas tudo têm sido muito caro, e tudo custa dinheiro — a cidade não passa de um mercado à céu aberto; não é que eu não tenha necessidades, mas eu não duvido que minhas necessidades possam ser deixadas de lado por uma boa causa.

Aí que eu questiono essa tal virtude; ganhar um salário é bom, mas à parte o primeiro pico de alegria por estar arrumando a minha vida constato que não haverá muitas alegrias pela frente, pelo menos nada além daquilo que já me fazia feliz. A fortuna é mesmo uma coisa caprichosa, a tal ponto dos estoicos antigos nunca deixarem um dia se passar sem refletir na imprevisibilidade da vida; também faço uma pequena reflexão agora que tenho em vista que passarei mais tempo nos próximos anos com meus livros e filmes do que com qualquer outra coisa.

Yasugiro Ozu é um cineasta japonês incensado por cineastas e cinéfilos do mundo todo. Sua genialidade é inegável, ainda que eu não me sinta confortável para discorrer profundamente sobre sua obra. Para isso recomendo o documentário The Story of Filme: An Odissey. Episódio 2. Foi lá que aprendi que Ozu usava de elementos tipicamente orientais em sua obra; ele falava através do vazio como poucos. Essa cena dos meninos do filme mudo I was born but… de 1932, para mim, no entanto, foi uma valiosa lição de como aceitar as mudanças da vida.

Basicamente o filme conta a história de dois meninos que idolatram o pai, e à medida que vão entendendo melhor os fatos da vida, passam pela dura lição de aceitar o pai como ele é. Mais do que isso, é um filme sobre a inocência, a perda e a retomada da inocência. Uma cena que muito me comoveu foi quando os dois meninos se enturmam e passam a serem os novos líderes da “gangue”; a ascensão à liderança impressiona pela naturalidade e desapego com que os meninos aceitam a mudança. Tive para mim, desde então, este exemplo de pureza, hoje tão raro de se ver. De certa forma ressoa com a fala de Cristo de que é preciso morrer para viver. O cristianismo nunca cresceu muito no Japão, mas você vê os meninos fazendo o sinal da cruz na brincadeira deles.

Isso não é uma carta de desculpas, no entanto. Pelo menos isso é uma coisa que eu não costumo fazer; é mais uma busca de entender o que me move. Como diz o Žižek, não devemos buscar ser felizes, mas interessantes. Isso não me diz nada, apesar de ser uma bela falácia. Pessoas felizes são naturalmente interessantes. Da minha parte prefiro não fazer definições do que é por natureza impossível de se definir. Um dia estamos bem, em outro temos que nos esforçar um pouco mais. Não acho que a vida seja uma luta terrível em um abismo, pendurado por um galho, por assim dizer — e nem acho que a cultura seja essa dádiva única na vida e que a tudo salva. Podemos viver bem com nossas limitações e podemos viver bem com alguma cultura. A existência, no entanto, sempre têm preferência.

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